O que é El Niño? Qual podem ser seus efeitos no Brasil?
A expectativa é que o fenômeno se intensifique até o fim deste ano
Rovena Rosa / Agência Brasil O El Niño está em curso, afirmou nesta quinta-feira (11) a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos. A expectativa é que o fenômeno se intensifique até o fim deste ano.
Segundo a agência americana, o fenômeno climático deve se desenvolver para um nível moderado ou forte.
No início deste mês, a secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Celeste Saulo, disse que o mundo precisa se preparar para os efeitos do fenômeno, que pode elevar o risco de chuvas, enchentes e ondas de calor.
O recente alerta da OMM acerca do El Niño fez as buscas na internet sobre o fenômeno atingirem pico de popularidade, segundo dados do Google Trends.
As pesquisas cresceram seis vezes em comparação com maio de 2024, mês marcado pelas enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul.
O estado gaúcho e Santa Catarina lideram o interesse por informações sobre o fenômeno climático.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou recentemente que o governo federal está preparado para enfrentar os possíveis reflexos do El Niño no país. A gestão planeja ações para mitigar os impactos do fenômeno e evitar que incêndios florestais se espalhem pelo país em um eventual período de seca.
O QUE É O EL NIÑO?
O El Niño consiste no aquecimento maior do que a média das águas do Pacífico que se movem em direção à América do Sul, somado ao enfraquecimento dos ventos alísios, deslocamentos de ar quente e úmido nas zonas equatoriais. A atenuação dos ventos contribui para que a água quente volte para o meio do oceano.
QUAL A ORIGEM DO NOME EL NIÑO?
O nome faz referência ao menino Jesus. O El Niño traz chuva no fim do ano em uma área geralmente mais seca no Peru. Por isso, a chuva foi associada ao Natal e a ser vista como um presente de Deus.
O QUE É O SUPER EL NIÑO?
O climatologista Francisco Eliseu Aquino, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), disse que o termo super El Niño destaca a intensidade do fenômeno em comparação aos demais, mas não é um termo técnico.
Em geral, o El Niño se caracteriza por águas 0,5°C mais quentes do que a média. Quando essa temperatura fica acima de 2°C ou 2,5°C, o fenômeno é considerado muito forte. Previsões de um eventual El Niño neste ano realizadas pelo Centro Europeu para Previsões Climáticas de Médio Prazo (ECMWF) indicam que o aumento da temperatura pode ficar acima dos 3°C
Para o meteorologista Márcio Cataldi, professor do departamento de Engenharia Agrícola e Meio Ambiente da Universidade Federal Fluminense (UFF), "as previsões indicam que esse pode ser um El Niño muito forte, mais forte do que o que a gente tem registrado até hoje". Ele lembra, porém, que só há registros confiáveis de El Niño a partir da década de 1980, quando satélites passaram a contribuir com a coleta de dados.
A OMM, em sua atualização mais recente, afirmou que a maioria das previsões sugere que um evento El Niño poderá ser ao menos moderado e, possivelmente, forte.
QUANDO COMEÇA O EL NIÑO?
De acordo com a Organização Meteorológica Mundial, há probabilidade de 80% de que um El Niño se forme entre junho e agosto. No último boletim da OMM, que utilizou dados de meados de maio, consta que as anomalias de temperaturas estavam aumentando no Pacífico equatorial, o que indica um "padrão contínuo de aquecimento que pode favorecer o desenvolvimento do El Niño".
QUANTO TEMPO DURA O EL NIÑO?
O El Niño costuma durar entre 9 e 12 meses, segundo a OMM. Em geral, começa no final do inverno do hemisfério Sul e atinge o pico entre novembro e janeiro. O fenômeno começa a desaparecer a partir do primeiro mês do ano.
QUAIS PODEM SER OS EFEITOS DO EL NIÑO NO BRASIL?
No Brasil, o Norte e o Nordeste devem ficar mais secos e quentes, principalmente durante o verão, que coincide com o ápice do El Niño.
Isso contrasta com o Sul, que passa a receber chuvas mais concentradas e com maior volume. Isso gera problemas como inundações e enxurradas, em especial, em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, segundo Aquino.
No Sudeste e no Centro-Oeste, as temperaturas se elevam e as ondas de calor tendem a se tornar mais frequentes e intensas.
QUANDO FOI O ÚLTIMO EL NIÑO E QUAIS FORAM SEUS EFEITOS NO BRASIL?
O último El Niño no país ocorreu entre 2023 e 2024, período em que o Rio Grande do Sul foi devastado com a ocorrência de fortes chuvas que contribuíram para enchentes históricas. Já no Amazonas, entre outubro e novembro de 2023, houve a maior estiagem da história, quando o rio Negro chegou a atingir 12,7 metros, o menor nível em mais de um século.
COMO AS CIDADES PODEM SE PREPARAR PARA O EL NIÑO?
A professora Denise Duarte, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, avalia que, no Sudeste e Centro-Oeste, onde há ondas de calor, as cidades precisam do que chama de oásis urbanos.
A proposta dela é espalhar pela cidade, principalmente em áreas ligadas à mobilidade e à coletividade, espaços que possam resfriar a cidade, com sombra, árvores, local de descanso e pontos de hidratação.
Isso também é importante em locais que sofrem com a seca durante o El Niño, já que a combinação entre fonte de água e vegetação torna o ar mais úmido e as temperaturas mais baixas.
Já no Sul, com as chuvas, é importante que a cidade tenha um plano de comportas e bombas em funcionamento. Além disso, em menor escala, é possível trabalhar com cidades-esponjas para aumentar a absorção da água pela cidade.
Márcio Cataldi destaca que a Defesa Civil também deve se preparar para os desastres que costumam ocorrer durante o El Niño.
RAMANA RECH E GÉSSICA BRANDINO/ AGÊNCIA BRASIL




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