Paciente que usou polilaminina viraliza na academia e coloca substância nos trends; entenda o que se sabe sobre o tratamento
Estudo sobre polilaminina ganha destaque, enquanto cientista reforça que testes ainda estão em fase inicial
Reprodução / Redes Sociais As redes sociais foram tomadas nos últimos dias por trends sobre a polilaminina. Pacientes em recuperação, debates sobre patente e manifestações de orgulho pela ciência nacional dominaram o Instagram e o TikTok. O estopim foi a publicação de Bruno Drummond, primeiro paciente a receber a substância no mundo, que apareceu em vídeos fazendo exercícios na academia.
Apesar da repercussão positiva, a cientista Tatiana Sampaio, que lidera a pesquisa, faz um alerta: a polilaminina pode ser uma esperança para pacientes com lesão medular, mas ainda não é uma certeza. As informações são do Portal G1.
O que é a polilaminina
A polilaminina é um composto criado em laboratório a partir da laminina, uma proteína produzida naturalmente pelo corpo humano, especialmente durante o desenvolvimento embrionário, quando atua na organização dos tecidos e no crescimento celular.
Tatiana Sampaio desenvolveu a pesquisa com o objetivo de tratar lesões medulares agudas, aquelas que ocorrem há pouco tempo e deixam a pessoa sem movimentos. Os primeiros resultados, obtidos em animais e posteriormente em um pequeno grupo de pessoas, levaram a uma parceria com o laboratório nacional Cristália e à autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o início de estudos clínicos.
A pesquisa atual busca responder: a polilaminina funciona como tratamento para pessoas com lesão medular aguda?
Tatiana explica que o que se tem hoje é uma substância com potencial para se tornar um medicamento, mas que o caminho ainda é longo. Ela diz que ainda não é um feito consolidado, mas sim uma promessa de tratamento. No dia em que estiver registrado e os pacientes recuperarem funções de forma consistente, aí sim será possível falar em revolução.
O que se sabe até agora
Um estudo preliminar com oito pacientes, ainda sem revisão por pares, indicou diferentes níveis de recuperação motora. Nem todos tiveram recuperação completa. O caso de Bruno Drummond, que viralizou, não representa o resultado observado em todos os participantes.
Especialistas explicam que há evidências de que até 30% dos pacientes com lesão medular aguda podem recuperar algum grau de movimento mesmo sem a substância. Isso depende do tipo de lesão, da agilidade no atendimento e da resposta individual de cada organismo.
Como age a substância
Quando ocorre uma lesão na medula, os prolongamentos dos neurônios se rompem e o corpo forma uma cicatriz no local, dificultando a reconexão. A polilaminina é aplicada diretamente na área lesionada durante a cirurgia e forma uma estrutura de suporte que funciona como uma ponte microscópica, facilitando o crescimento dos neurônios e ajudando a restabelecer parte da comunicação entre o cérebro e o corpo.
Por que a polilaminina está sendo usada agora
Desde a divulgação do estudo, dezenas de pacientes e familiares recorreram à Justiça para ter acesso à substância. O Brasil permite o uso compassivo de medicamentos em fase de estudo, mas com avaliação da Anvisa. Como a aplicação precisa ocorrer em até 72 horas após a lesão, as decisões judiciais pediram rapidez.
Segundo o laboratório Cristália, há cerca de 40 ações judiciais e 19 aplicações realizadas até agora. A diferença ocorre porque alguns pacientes não tiveram aval médico devido à condição clínica.
Essas aplicações, no entanto, não fazem parte de um ensaio clínico formal. Os pacientes recebem a substância sem acompanhamento dentro de um protocolo estruturado de pesquisa. As evoluções são variadas: alguns tiveram recuperação gradual, outros movimentaram alguns membros.
Tatiana Sampaio diz entender a mobilização, mas alerta que esse tipo de aplicação deixa os pacientes expostos. Como não estão dentro de um estudo clínico, não há responsabilidade formal por um acompanhamento.
O que falta para a polilaminina se tornar medicamento
O resultado atual é acadêmico. Para que a substância chegue a hospitais e ao SUS, ainda é necessário:
- Iniciar ensaios clínicos regulatórios em humanos, começando pela fase 1, que avalia segurança em pequeno grupo. Isso foi aprovado pela Anvisa em janeiro, mas ainda depende da comissão de ética.
- Caso a segurança seja comprovada, avançar para as fases 2 e 3, que avaliam eficácia, doses e efeitos adversos em populações maiores.
- Se aprovada nessas etapas, solicitar o registro sanitário. Só então o medicamento pode ser comercializado.



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