Desesperança e polarização: o que afasta os eleitores das urnas?
Número de abstenções no primeiro turno foi o maior desde 1998
Estudantes contra a ditadura eram duramente reprimidos pelos militares. (Foto: Evandro Teixeira) O Brasil registrou mais de 33 milhões de abstenções no primeiro turno das eleições de 2026. O número representa cerca de 21% do eleitorado apto a votar, que soma mais de 158 milhões de brasileiros.
Além disso, dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontam que os votos em branco e nulos somaram quase 6 milhões. Juntos, esses números ultrapassam 39 milhões de eleitores que não escolheram um candidato válido. No entanto, esses dados não significam, necessariamente, que todos eles não se sintam representados pelos candidatos.
Segundo o cientista do consumo, psicólogo e pesquisador fundador do Instituto de Pesquisas de Sorocaba (IPESO), Victor Trujillo, “é importante não confundir abstenção com desinteresse político”.
“Segundo o Datafolha, os dois principais motivos foram estar viajando ou fora da cidade, com 19%, e problemas de saúde, com 18%. O desinteresse pela eleição ou pelos candidatos apareceu com 13%. Depois vêm trabalho, falta de documentos, distância do local de votação e outros motivos”, destacou o especialista.
Por que isso acontece?
Victor também explicou os fatores que afastam os eleitores das urnas. Segundo ele, o desinteresse não tem uma única causa.
“Existe a desesperança e existem também aqueles que se afastam justamente por causa da polarização. São eleitores que não se sentem plenamente representados nem por um lado nem pelo outro e que se incomodam com o ambiente de ataques e radicalização da disputa”, afirmou.
É importante, porém, compreender o papel do voto na sociedade e analisar as propostas dos candidatos, independentemente de suas ideologias.
Idosos
No Brasil, o voto é facultativo para pessoas com mais de 70 anos. Isso significa que elas podem participar das eleições, mas não são obrigadas a votar. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o percentual de eleitores dessa faixa etária que não compareceram às urnas caiu de 58,8% em 2022 para 49,1% no primeiro turno de 2026.
A redução foi de 9,7 pontos percentuais. Apesar da queda, a abstenção entre os idosos ainda é significativa. Entre os fatores que podem dificultar o comparecimento estão a falta de uma rede de apoio e os problemas de locomoção.
Nesse contexto, a carona solidária pode ser uma alternativa para pessoas que dependem de ajuda para chegar ao local de votação, desde que respeitadas as condições de segurança e acessibilidade.
A importância do voto
Para compreender a importância do voto no Brasil, é necessário voltar ao início do século XX, durante a República Velha. Naquele período, o poder político era marcado pela influência das oligarquias estaduais, especialmente as de São Paulo e Minas Gerais. Essa alternância de influência ficou conhecida como política do café com leite.
Em 1932, durante o governo de Getúlio Vargas, foi instituído um novo Código Eleitoral, que introduziu o voto secreto e reconheceu o direito de voto das mulheres. A medida representou um avanço no sistema eleitoral brasileiro, embora o direito ao voto ainda estivesse sujeito a restrições, como as aplicadas aos analfabetos.
Antes dessas mudanças, o sistema eleitoral era marcado por limitações à participação política e por práticas de controle dos votos, como o chamado voto de cabresto, associado à influência dos coronéis.
“Quanto mais o eleitor se desconecta desse processo, menor tende a ser o vínculo entre a sociedade e aqueles que foram eleitos. Então, mais preocupante do que simplesmente faltar em uma eleição é a apatia política: quando a pessoa passa a acreditar que aquilo que acontece na política não tem relação com a sua própria vida”, destacou Victor.
Na prática, o afastamento das urnas pode reduzir a participação de determinados grupos nas decisões políticas. Quando alguém deixa de votar, os demais eleitores que comparecem às urnas passam a ter maior peso relativo na escolha dos representantes.
Era Vargas
A ampliação dos direitos políticos não ocorreu de forma contínua. Após a Revolução de 1930, que pôs fim à República Velha, Getúlio Vargas assumiu o poder em caráter provisório. Durante seu governo, centralizou decisões e substituiu os antigos presidentes estaduais por interventores.
Em 1932, São Paulo protagonizou a Revolução Constitucionalista, movimento que exigia a convocação de uma Assembleia Constituinte. Anos depois, em 1937, Vargas utilizou a divulgação do Plano Cohen, um documento falso que alegava a existência de uma conspiração comunista, como justificativa para dar um golpe de Estado.
Com o golpe, Vargas cancelou as eleições presidenciais previstas e instaurou o Estado Novo, uma ditadura marcada pela censura, pela perseguição a opositores e pela concentração de poder. O regime durou até 1945, quando a pressão política e militar levou à deposição do presidente.
Ditadura militar
Em 31 de março de 1964, teve início o movimento militar que depôs o presidente João Goulart. Com apoio de setores da elite e da classe média, além do respaldo do governo dos Estados Unidos, os militares justificaram a tomada do poder pela necessidade de combater a ameaça comunista.
Após o golpe, foram editados atos institucionais que restringiram direitos políticos, permitiram cassações de mandatos e ampliaram os poderes do regime. O período foi marcado por 21 anos de ditadura, censura, perseguição política e violações dos direitos humanos.
A redemocratização ganhou força com a mobilização popular, especialmente durante a campanha das Diretas Já, que reivindicava eleições diretas para presidente. Embora a emenda que previa a eleição direta não tenha sido aprovada em 1984, a pressão social contribuiu para o processo de transição democrática, consolidado posteriormente com a Constituição de 1988.
Desde então, o Brasil mantém um regime democrático baseado no voto, na realização periódica de eleições e na participação política da população.
Polarização
Em tempos de polarização, a democracia enfrenta desafios para manter o diálogo entre diferentes grupos políticos. Victor Trujillo destaca a importância do voto e da busca por pontos de convergência em uma disputa acirrada, como a das eleições de 2026.
“Quanto mais disputada a eleição, maior a necessidade de procurar aquilo que aproxima os eleitores, e não apenas aquilo que os separa. A polarização pode continuar nas cores, nos slogans e na retórica. Mas, para conquistar o eleitor que está no meio, os projetos precisam conversar cada vez mais entre si”, afirmou.
O especialista também ressaltou que não basta mobilizar os eleitores já convencidos. É necessário conquistar aqueles que ainda não decidiram em quem votar.
“Isso cria um movimento interessante: os dois candidatos precisam sair um pouco de seus extremos e caminhar em direção a uma zona maior de convergência”, concluiu Victor.
O segundo turno das eleições de 2026 está marcado para o dia 25 de outubro. Para votar, o eleitor deve apresentar um documento oficial com foto. Informações sobre o título de eleitor, o local de votação e a zona eleitoral podem ser consultadas no site oficial do Tribunal Superior Eleitoral: tse.jus.br.




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