A Associação Transgêneros de Sorocaba, a Comissão da Diversidade e a Comissão da Mulher Advogada da Ordem dos Advogados do Brasil repudiaram a explanação do vereador pastor Luís Santos (Pros), na Tribuna da Câmara Municipal, no último dia 13, quando afirmara “que a Ufscar e o Sesc defendem essa maldita ideologia, que subverte tudo aquilo que é racional… A mãe veio aqui, veio aqui, e não vou dizer o nome porque vocês conhecem, ela veio aqui e disse: pastor, está havendo um problema sério lá no Sesc. Fica um vagabundo lá no balcão, vê a mulher entrar em um banheiro feminino, ele entra, e diz que ele se sente mulher, então ele vai lá (sic)”.

Luís Santos referiu-se a uma estudante transgênero de pedagogia da Ufscar que faz estágio remunerado no Sesc. Segundo o vereador, mães de pessoas que frequentam as atividades na instituição foram reclamar a ele que ela [a estagiária transgênero] utiliza o banheiro feminino, o que, para ele, “é muita falta de vergonha de uma pessoa dessa, e nós não podemos aceitar isso (sic)”.

A presidente da associação, Sarah Pedro Correa, protocolou, nesta terça-feira (25), uma representação na Comissão de Ética e Decoro Parlamentar contra o pastor, acusando-o de se utilizar de “uma expressão transfóbica caracterizada mais como uma conduta do que propriamente um discurso, não sendo cabíveis, portanto, argumentos pautados na liberdade de expressão do exercício parlamentar, visto que seu o discurso de ódio intencionou se em insultar, intimidar e assediar uma mulher trans, exclusivamente em virtude de sua pratica social, e pode ser definido como um ataque verbal enquadrado na tipificação penal de insulto do artigo 139 do Código Penal”.

Sarah pede ao presidente da Comissão, Anselmo Neto (PSDB), que se verifique uma possível quebra de decoro na fala do pastor, o que poderia ensejar uma punição, que vai desde uma advertência verbal até mesmo à cassação do mandato parlamentar.

Já a OAB, por meio de nota, diz que “discursos como esse legitimam ataques à integridade física e mental dessa parcela da população, já tão negligenciada pelo Estado, mantendo o Brasil na liderança do ranking de países que mais matam pessoas trans no mundo”.

Para a Ordem, na condição de representante do povo na Câmara Municipal, o vereador “não pode desrespeitar, publicamente, uma trabalhadora em razão de sua identidade de gênero, provocando constrangimento em seu local de trabalho. Além disso, observa-se em sua fala uma tentativa de criminalizar a existência e o convívio com pessoas transgêneros/transexuais/travestis como se, algo corriqueiro, como ir ao banheiro, fosse um ato de violência por si só”.

“Cristofobia”

Na sessão desta terça-feira (25), Luís Santos foi alvo de nova polêmica, ao ler um texto referente a um teste aplicado em sala de aula da Escola Estadual “Dr. Arthur Cyrillo Freire”, em que se pede para o aluno apontar, diante de uma imagem, se um teste de DNA determinar que um bebê nascerá gay, os cristãos seriam contra ou a favor do aborto?

“O que isso tem a ver com uma prova de sociologia”, questiona o pastor.

Irritada com tal leitura, a colega Iara Bernardi (PT) subiu à Tribuna da Câmara para ver o documento, e ouviu do vereador que ela “é a favor do aborto, dessa loucura de jogar as pessoas contra os cristãos, isso é cristofobia (sic)”.

Iara rebateu, com o dedo em riste: “melhor você moderar a sua fala, pois você está falando de mim aqui, tá?”, tirando dele o microfone.

“Não existe democracia”, disparou o pastor.

Assista ao vídeo:

3 Comentários

  1. Em absoluto me referindo ao polêmico assunto do ponto de vista social, mas analisando a pergunta relatada apenas pelo cunho cientifico, fico horrorizado em constatar o grau de estupidez de um professor ao criar essa pérola de pergunta.
    Nem de genética básica essa cavalgadura entende. Como pode se atrever a fazer uma pergunta com a clara intenção de provocar esse tipo de celeuma “só por gosto” ?
    Como um cérebro ridículo desses pode ser guindado ao posto de professor de alguém ???

    • Nenê,

      a prova não era sobre genética, e sim sobre sociologia. Todas as questões ali referidas dizem respeito a temas sociológicos. Eu não vi NENHUMA das perguntas que o pastor leu que não fossem referentes a temas sociológicos.

      Concordo que se possa questionar que essa hipótese não é precisa em relação às descobertas da genética como ciência até aqui, mas a intenção da questão era apresentar uma hipótese, e diante disso, um dilema moral. Os alunos poderão apresentar, diante daquela questão, opiniões contrárias e favoráveis ao aborto, e posições críticas ou não ao modo como a maioria dos cristãos e de suas lideranças defendem isso. Não vejo problema em debater a opinião cristã sobre aborto em aulas de sociologia.

      Laicidade é um tema sociológico. No mundo inteiro, inclusive em todas as universidades do Brasil, a sociologia debate laicidade. Isso também está na lei educacional brasileira, em qualquer apostila de Pré-ENEM.

      Então não foi só por gosto que o professor apresentou a pergunta. As palavras do Pastor Vereador ao apresentar sua indignação mostram que ele claramente não conhece muito de sociologia, e entendeu errado a pergunta. A intenção não é criticar o cristianismo, é debater laicidade. Inclusive essa pergunta permite aos alunos cristãos, até mesmo aos que são contra o aborto, expressar suas opiniões.

      A sociologia é uma ciência, ou seja, essa pergunta tem um cunho científico.

      Temos que tomar cuidado para não perseguir professores que estão fazendo um bom trabalho, elaborando boas questões. A pedagogia permite a liberdade de criação de estratégias de avaliação, o vereador tá vendo pelo em casca de ovo…

      Gostaria de conversar com a família que levou a reclamação ao vereador, com certeza, se eles tivessem um pouco mais de contato com a sociologia, entenderiam que perguntas como essa podem tranquilamente ajudar crianças e adolescentes cristãos em seu processo educacional sem prejudicar o exercício da sua fé, formando pessoas melhores, mais conscientes, livres e críticas. Livres para exercerem sua fé num país laico, e não antireligioso, inclusive.

      • Bela explanação. E vc tem toda razão, os debates são fundamentais para que os jovens desenvolvam seu pensamento crítico sobre todos os assuntos, inclusive sobre as questões mais polêmicas. A questão nao é a influência do professor aos alunos e sim que eles raciocinem por si e formem sua própria opinião.

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