Por Gabriel Bitencourt

Vez por outra, tenho falado sobre o veganismo especialmente por conta de sua intrínseca relação com a sustentabilidade socioambiental. Aliás, este foi um dos fortes motivos pelos quais me tornei vegano.

Volto a abordar o tema por conta de uma recente polêmica envolvendo o renomado chef Alex Atala.

Entretanto, vamos, incialmente, conceituar veganismo e diferenciá-lo do vegetarianismo.

Vegetariano é alguém que não usa animais para sua alimentação, embora, alguns se utilizem de ovos e laticínios. Estes são denominados de ovolactovegetarianos. Já aquele que não se alimenta de qualquer produto de origem animal é o vegetariano estrito.

O vegano, por sua vez, exclui todos os produtos de origem animal não só da alimentação, mas também do seu vestuário, dos produtos de higiene, além de não se utilizar de produtos que são testados em animais.

O vegano também evita atividades que provoquem sofrimento animal como touradas, rodeios, zoológicos, entre outras.

A polêmica a que me referi se deu por conta da entrevista que o chef Alex Atala concedeu à revista Época Negócio, desqualificando a relação entre sustentabilidade socioambiental e o veganismo.

A Sociedade Vegetariana Brasileira se manifestou, ao meu ver, de forma muito precisa e bem fundamentada e, por isso, transcrevo seu texto em seguida.

ESCLARECIMENTOS DA SOCIEDADE VEGETARIANA BRASILEIRA

Em entrevista publicada hoje na revista @epocanegocios o chef @alexatala fala sobre os impactos da “produção da comida vegana” ao meio ambiente, mencionando ainda que uma agricultura que esterilize ecossistemas é pior do que matar animais.

Em virtude dos equívocos muito comuns citados na matéria e no intuito de esclarecer e não desencorajar pessoas a aderirem ao veganismo, a #SociedadeVegetariana esclarece:

De acordo com os relatórios do Banco Mundial [5], 91% das causas do desmatamento são causadas pela pecuária. O Cerrado, segundo maior bioma do Brasil que compõe quase 25% da área do país, já teve mais de 50% de sua área devastada. O maior pântano do mundo se encontra ali, que é o Pantanal, e segundo relatórios de 2017, ele também passou a encolher [6]. O que não é pasto vira imensos campos de soja. 79% da soja processada no país se torna ração para alimentar animais [7] e 44% da soja que não é processada é em sua maioria exportada para se tornar ração para porcos e galinhas, principalmente na China.

80% da soja processada no Brasil vai para produção de farelo como comida de gado. Isso equivale a 49% da soja produzida no país. [1]

Do produção total, apenas 7% vai para consumo (os tais vegetarianos) e 44% para exportação (os outros 49, como mencionado acima, são processados). [1]

De toda a proteína produzida no Brasil, somente 16% é usada na alimentação humana. 80% é usada como ração, principalmente para porcos e galinhas. [2].

A pecuária ocupa 75% das terras aráveis do planeta para pastagem e produção de ração – mas é responsável por apenas 12% das calorias consumidas globalmente [2;3].

Para cada 1 milhão de reais de receita com a pecuária bovina são gerados 22 milhões de custos ambientais e de perda de capital natural [4].

Se todos estes dados acima não são suficientes para nos preocuparmos com nosso planeta, lembramos também que estamos falando de mais de 70 bilhões de animais terrestres mortos por ano para alimentar 7 bilhões de pessoas do mundo que infelizmente não são veganas.

Muito diferente de uma escolha pelo lado “cool” como mencionado na matéria, buscamos conscientizar sobre a escolha de um mundo mais sustentável, pelo respeito e principalmente pela vida.

Referências:

https://www.svb.org.br/livros/comendo_o_planeta.pdf
https://istoe.com.br/397357_MAIS+DE+7+MILHOES+DE+PESSOAS+A…/
http://www.farmnews.com.br/merc…/produtores-de-carne-bovina/
https://www.nature.com/articles/nature10452
http://advances.sciencemag.org/content/4/2/eaat2340…
http://documents.worldbank.org/…/277150PAPER0wbwp0no1022.pdf
http://www.midianews.com.br/…/brasil-vacila-sobre-am…/314579
http://aprosojabrasil.com.br/2014/sobre-a-soja/uso-da-soja/
http://www.fao.org/docrep/010/a0701e/a0701e00.HTM
https://data.worldbank.org/indicator/EN.ATM.METH.AG.KT.CE
http://waterfootprint.org/…/Hoekstra-Mekonnen-2012-WaterFoo…
https://www.nature.com/articles/nclimate1674 [1] http://aprosojabrasil.com.br/2014/sobre-a-soja/uso-da-soja/
[2] Cassidy ES et al 2013 Redefining agricultural yields: from tonnes to people nourished per hectare. Environmental Research Letters 8; 034015
[3] Foley JA, et al 2011. Solutions for a cultivated planet. Nature 478:337-42
[4] Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) & German Agency of International Cooperation (GIZ). 2015. Natural Capital Risk Exposure of the Financial Sector in Brazil. https://www.trucost.com/…/natural-capital-risk-exposure-fi…/

8 Comentários

  1. Agradeço por publicar essa materia, assim mais pessoas terão acesso a essas informações tão importantes.

  2. Muito bom. Isso tudo sem falar nos males à saúde causados pelo consumo de carnes, que geram custos altíssimos aos sistemas de saúde, públicos ou privados. Outro ponto que poderia ser abordado é o consumo excessivo de água na pecuária, sendo necessários alguns milhares de litros pra produção de um mísero quilo de carne bovina. Ainda tem a extensa degradação de terras potencialmente araveis, e a pressão seletiva que aumenta chances de surgimento de super bactérias (a maior parte dos antibióticos são usados em animais, de forma indiscriminada). Ah.., também tem a imensa produção de metano. Enfim, a pecuária no geral é mais destruidora de riquezas do que geradora, e todos nós assumimos seus ônus.

    • Sem dúvida, Martos!
      Abordei,apenas os aspectos relacionados com a sustentabilidade socioambiental, porém, os impactos do consumo de produtos de origem animal na saúde humana são gravíssimos. Muito bom o complemento feito pelo seu comentário! Obrigado!

  3. Nem acredito que uma matéria dessa está no Ipanema. Até que enfim!!! Parabéns Gabriel Bittencourt pela iniciativa de escrever sobre o tema. ♥

    • Tenho abordado este tema em minha coluna na rádio, Nathália. Não há como tratar sobre a sustentabilidade socioambiental sem falar neste assunto.

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