Por Djalma Luiz Benette

Entre 16 de novembro e 26 de dezembro de 2017 – portanto em 40 dias – haviam sido registradas em Sorocaba cinco mortes violentas de mulheres e hoje essa estatística aumentou com um novo caso de morte de mulher: o escrevente José Júlio da 4ª Vara Cível do Fórum de Sorocaba matou sua namorada, Simone, também escrevente no Fórum de Sorocaba na 6ª Vara Cível, com quem mantinha um relacionamento há dois anos. Agora são 6 assassinatos em 48 dias, o que mantém a média de uma mulher morta a cada 8 dias em Sorocaba.

Uma epidemia de Feminicídio – nome dado ao homicídio praticado contra a mulher simplesmente por ela ser mulher, ou seja, há o desprezo, menosprezo, desconsideração à dignidade da vítima enquanto mulher, como se as pessoas do sexo feminino tivessem menos direitos do que as do sexo masculino.

Enfim, a mulher é vista pelo homem como sendo uma coisa ou propriedade dele e ela tendo vontade própria, como o fim da relação com esse homem por exemplo, ele se achar no direito de matá-la, mesmo que depois ele também se mate como aconteceu neste tenebroso caso de hoje, que aconteceu na casa deles, rua Rio de Janeiro, atrás da Escola Municipal Getúlio Vargas, região central da cidade.

Isso não tem fim!

Meu Deus, onde vamos parar!

Sorocaba vive um estado de calamidade!

O que fazer!

Essas exclamações que ouvi de mulheres agora à tarde quando elas tiveram contato com essa nova morte. E no próximo sábado, dia 6, na praça da Concha Acústica, um grupo de mulheres da sociedade civil vai fazer panfletagem para chamar a atenção de quem passar pelo local para o problema de feminicídio que assola Sorocaba através de várias atividades culturais para chamar as pessoas à conscientização de serem contra à violência contra as mulheres.

Cultura do machismo

A sociedade gerou e alimenta em pleno século 21 o comportamento, expresso por opiniões e atitudes, de que o Homem é superior a Mulher e daí surge o termo machismo para caracterizar um indivíduo que recusa a igualdade entre os sexos.

O exemplo mais evidente dessa situação, disseminado com frequência, diz respeito a um homem receber um salário de 20% a 30% maior do que uma mulher quando ambos desempenham a mesma função dentro de uma organização. A tragédia mais evidente dessa realidade é o que se vê em Sorocaba nos últimos 48 dias onde 6 mulheres foram mortas porque seus assassinos sentiam-se donos delas.

Feminicídio e Suicídio

Essa morte de hoje na rua Rio de Janeiro me faz pensar na mais recorrente pergunta que recebo de pessoas quando há um debate sobre jornalismo: por que a imprensa notícia quando alguém mata o outro, mas não notícia quando alguém se mata?

O primeiro Epa! sobre a notícia de suicídio foi dado quando o escritor alemão Goethe precisou se explicar porque uma centena de jovens se suicidou depois de ler o livro “Os sofrimentos do jovem Werther”, de 1774, da autoria dele, em que o personagem principal se mata. Alguns se vestiam como o protagonista do livro, outros adotaram o mesmo método para morrer e a publicação foi encontrada no local da morte de alguns.

A imitação de suicídios passou a ser chamada de Efeito Werther na literatura médica e mesmo 250 anos depois se mantém atual.

Outro exemplo de “contágio” suicida ocorreu em Viena, na Áustria, há recentes 30 anos, quando ocorreram 22 suicídios no metrô da capital austríaca em um período de 18 meses, o dobro do que foi registrado três anos anteriores, depois da cobertura sensacionalista de um caso em 1986.

Há recentes três anos, em 2014, a Organização Mundial de Saúde inclui a cobertura sensacionalista da mídia (o que incluí as redes sociais) como um fator de risco.

Mas o que é uma notícia sensacionalista?

A resposta mais próxima para esta pergunta é: matérias que exibem imagens de corpos ou detalhes do método utilizado para o suicídio, indicação do local da morte, descrições de como os corpos estavam e chamadas dramáticas ou carregadas de tensão.

A Associação Brasileira de Psiquiatria, assim como a Organização Mundial de Saúde, sugere que o sensacionalismo deve ser evitado. A Associação Brasileira de Psiquiatria, em sua cartilha para profissionais da imprensa, afirma: “Acredita-se que carregar a reportagem de tensão, por meio de descrições e imagens de amigos e familiares impactados, acabe por encorajar algumas pessoas mais vulneráveis a tomarem o suicídio como forma de chamar a atenção ou de retaliação contra outros”.

Esse banimento do suicídio do noticiário, portanto, se deu a partir do fantasma de imitação. Mas quando entendeu que o suicídio devia ser tratado como notícia, a mídia errou na dose. Ou seja: os extremos (silêncio ou sensacionalismo) ignoram o mais importante do suicídio: a sua prevenção.

O fato é que suicídio não é sensacional, mas sim um problema de saúde mental. Mesmo assim fato real, corriqueiro e presente no cotidiano da sociedade. Portanto, deve ser tratado publicamente.

A partir dessa reflexão me ocorre a pergunta: qual a responsabilidade da comunicação (incluindo a das redes sociais, feitas sem a técnica e principalmente sem a ética jornalística) nos casos de feminicídio que assolam Sorocaba nos últimos 48 dias?

Como no caso do suicídio, é plausível levar em conta que seja tratado como um fator de risco. Portanto, deve ser tratado com equilíbrio a ponto de não estimular a imitação e muito menos evitar a discussão sobre o que leva um homem a sentir que a mulher é sua propriedade e, pior, a matá-la.

Combate a banalização

O perfil dos casos de Sorocaba e ocorrido em outras localidades, como o México, por exemplo, onde o assassinato de mulheres é do cotidiano daquela sociedade, ajuda na compreensão do momento em que vivemos. Lá o tema se tornou banal. Aqui seguirá o mesmo caminho se não existir uma mobilização que mude a cultura.

Quando li o livro 2666, considerada a obra máxima de Roberto Bolaño, nascido no Chile, mas que viveu desde os 17 anos no México e Espanha, me chamou a atenção o tema. A narrativa do livro é direta como uma notícia jornalística. Dividido em 5 partes, na quarta delas, chamada “A parte dos crimes”, são descritos mais de 100 assassinatos de mulheres, uma inspiração em crimes reais ocorridos entre os anos de 1993 a 1997 num extremo mexicano.

Na resenha “2666 – Um oásis literário terrificante” (http://homoliteratus.com/2666-um-oasis-literario-terrificante/), o autor explica assim esse capítulo do livro: a narrativa desses assassinatos “talvez seja a ideia do autor em transformar essas mulheres assassinadas em traços, como nos relatórios de estatísticas, banalizando os crimes cometidos contra as mulheres no México, ideia reforçada pelas passagens em que se vê o machismo local (p. 527). É, também, nessa parte em particular, que conseguimos delinear com objetividade a maneira específica que Bolaño usará para retratar o mal, que invariavelmente irá nos remeter ao título. 2666 significará, no contexto da obra, um futuro apocalíptico (…)”

O que diferencia o feminicídio do México do praticado em Sorocaba é o assassino. Lá a mulher assassinada é, muitas vezes, uma desconhecida do seu assassino, e se banalizou, não choca mais a sociedade. Aqui em Sorocaba, nos 6 casos nos últimos 48 dias o que se vê é um homem matando a mulher que ele julgava ser sua após algum tipo de relacionamento emocional. E que, ainda bem, nos indigna.

Veja o caso de hoje, na rua Rio de Janeiro: o assassino era um tido como doce de pessoa. Olhe o relato que recebo de uma advogada que o conhecia: “José Júlio era escrevente de sala de juiz na Comarca de Sorocaba e a moça morta por ele também trabalhava no fórum. A Simone era escrevente na 6ª Vara Civel e ele até há pouco tempo estava na 4ª Vara Cível. Posso dizer que era um homem inteligentíssimo. Seu pai, já falecido, foi delegado. José Júlio era um doce com a gente embora tenha o histórico de usar remédio controlado devido ao perfil agressivo com mulheres. Ele estava há pouco mais de 2 anos com a Simone que era mãe de 3 filhos. José Júlio não era o pai de nenhum deles”.

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