Por Erick Rodrigues

Muita gente já ouviu, infelizmente, o questionamento: “mas, por que existe um Dia da Consciência Negra?”. Ou, então, escutou a afirmação: “se há um dia assim, também deveria ter um Dia da Consciência Branca!”. Seja qual for a frase, elas, de uma forma geral, acabam surgindo para minimizar a importância da representação da data, que vai além de um simples feriado.

Instituído em 2003, o Dia da Consciência Negra é lembrado, desde então, em todo 20 de novembro, data escolhida por coincidir com o dia atribuído à morte de Zumbi dos Palmares, considerado um dos símbolos da resistência à escravidão no Brasil. Independente de feriado, já que algumas cidades conferiram esse status à ocasião, falar em consciência negra nessa data é uma forma de olhar, ao mesmo tempo, para passado, presente e futuro.

Em relação ao que foi deixado para trás, o Dia da Consciência Negra pode ser uma maneira de refletir sobre as injustiças cometidas com a comunidade negra, escravizada, subjugada e violentada por uma absurda ideia de superioridade, que, historicamente, produziu atrocidades e muito sofrimento ao redor do mundo.

A segregação do passado produz efeitos no presente. A escravidão acabou, a luta dos negros por igualdade criou leis e estabeleceu, teoricamente, os mesmos direitos a todos. O Dia da Consciência Negra serve, também, para outra reflexão: será que, de fato, somos todos iguais e temos as mesmas oportunidades? Não é raro ouvir que, no Brasil, não existe preconceito, mas, geralmente, quem diz isso sequer procurou escutar quem sofre os efeitos da discriminação, velada ou escancarada, todos os dias. Um branco, talvez, nunca tenha a dimensão do que é ter a capacidade, o talento e, até mesmo, o caráter julgados a partir da cor da pele, mas nada impede que ele busque referências para tentar entender e, mais do que isso, ajudar a acabar com comportamentos preconceituosos, impedindo que eles sejam naturalizados e replicados.

Por fim, o Dia da Consciência Negra serve como um olhar para o futuro, que vise sempre a igualdade de direitos e oportunidades. Levando em conta as reflexões propostas por passado e presente, podemos criar condições para um amanhã onde as pessoas não são vistas como melhores ou piores pela cor da pele, merecendo sempre o respeito que todo ser humano merece.

Assim como outras formas de arte, o cinema pode contribuir com essa reflexão sobre o Dia da Consciência Negra e, pensando nisso, resolvi listar oito filmes que trazem discussões sobre igualdade, preconceito e oportunidades para transformarmos o futuro.

FILMES PARA O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

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– Selma (2014)

Um dos grandes nomes na luta pela igualdade de direitos no mundo é o de Martin Luther King, já retratado em diversos dramas e documentários. “Selma”, da diretora Ava DuVernay, mostra a participação do ativista em um dos fatos históricos mais conhecidos dos Estados Unidos: a marcha que partiu da cidade de Selma em direção a Montgomery, capital do Alabama, em 1965, com o objetivo de garantir que os negros tivessem direito ao voto. O movimento provocou reações violentas e discursos inconformados, especialmente na região sul do país, historicamente conhecida pelo preconceito. Com uma narrativa vigorosa e uma direção precisa, “Selma” é um ótimo filme para a reflexão sobre a importância de almejar e lutar pelos direitos civis.

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– Estrelas Além do Tempo (2016)

Talento e capacidade não se medem pela cor da pele, mas, para os que acreditam que isso não é verdade, três mulheres podem servir de inspiração para provar que eles estão errados. Elas, aliás, já fizeram isso com os colegas da Nasa, onde trabalharam em plena corrida espacial entre Estados Unidos e Rússia. Inspirado em uma história real, pouco conhecida até pouco tempo atrás, “Estrelas Além do Tempo” mostra como essas mulheres brilhantes lutaram para serem reconhecidas e vencerem diversos obstáculos diários, que iam da proibição de usarem o mesmo banheiro dos brancos até a impossibilidade de ocuparem cargos semelhantes. No longa, o carisma do trio central, Taraji P. Henson, Janelle Monáe e Octavia Spencer, cativa e emociona o espectador.

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– Histórias Cruzadas (2012)

A empregada Aibileen (Viola Davis), assim como tantas outras no Mississippi dos anos 60, dedica a vida aos cuidados de uma família branca que nem sequer permite que ela utilize o banheiro da casa. Essa é, no entanto, apenas uma parte da rotina da personagem, que ainda é obrigada a ouvir os maiores desaforos dos patrões e ver todas as injustiças sofridas pela comunidade negra na região. Para ter voz nesse cenário, ela se alia a Skeeter (Emma Stone), uma jornalista contestadora, para expor os bastidores do dia a dia das empregadas, o que causa curiosidade e muito desconforto. “Histórias Cruzadas” se destaca pela construção das personagens e forma com a trama aborda a segregação naquela região norte-americana.

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– A Negação do Brasil (2000)

Há alguns meses, a novela “Segundo Sol” foi alvo de discussões e críticas pelo fato de trazer poucos atores negros no elenco, especialmente por conta de levar ao espectador uma história que se passava na Bahia. O debate sobre a presença de negros na teledramaturgia brasileira não é novo e foi, inclusive, tema do documentário “A Negação do Brasil”, de Joel Zito Araújo, que analisa o espaço que esses artistas tiveram no gênero. O longa, inclusive, propõe uma reflexão sobre os esteriótipos que limitaram os negros a papéis de empregados, escravos e malandros. Grandes nomes da dramaturgia nacional, como Ruth de Souza, Milton Gonçalves e Léa Garcia, também falam sobre as oportunidades que tiveram e os preconceitos sofridos na carreira.

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– 12 Anos de Escravidão (2014)

Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) é um negro nascido livre que, de uma hora para outra, é sequestrado e vendido como escravo. Isso faz com que ele passe mais de uma década longe da esposa e dos filhos, sendo submetido a constantes explorações e violências dos brancos que o compraram. Dirigido por Steve McQueen, “12 Anos de Escravidão” mostra como o negro era encarado com um produto, que podia ser retirado à força de um local e ser comercializado sem que o valor da vida daquele ser humano fosse levado em consideração. Um dos destaques do longa é a atriz Lupita Nyong´o, vencedora do Oscar pela interpretação de Patsey, uma escrava vítima da violência e do desejo de Epps (Michael Fassbender).

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– Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi (2017)

Mais uma vez, o sul dos Estados Unidos é o cenário para a discussão do racismo, mas a diferença de “Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississippi” é que o filme de Dee Rees mostra como essa questão afeta diversas relações diferentes, como o carinho entre dois amigos que dividem traumas de guerra e chocam a comunidade por terem cores de peles diferentes ou da cooperação entre duas famílias. O longa também mostra o fortalecimento de seitas que pregam a violência contra negros, como o Ku Klux Klan, com sequências impactantes. Um dos destaques do elenco é a atriz e cantora Mary J. Blige, que vive a matriarca de uma das família e contribui, inclusive, com a bela canção “Mighty River” na trilha sonora.

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– A 13ª Emenda (2016)

Com direção de Ava DuVernay, o documentário “A 13ª Emenda” parte de um dispositivo da Constituição norte-americana para propor uma discussão: será que a escravidão realmente acabou? Ouvindo historiadores e ativistas, o longa mostra como injustiças sociais e violência continuam a afetar os negros, na maior parte das vezes, com o respaldo da lei. O roteiro de Spencer Averick explica como o item da Constituição serviu para driblar o fim da escravidão e ser uma alternativa para a exploração de trabalho braçal, em um processo beneficiado por um sistema prisional de encarceramento em massa, que afeta, principalmente, a população negra. “A 13ª Emenda” foi indicado ao Oscar e venceu o Bafta de melhor documentário.

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– Marshall: Igualdade e Justiça (2017)

O advogado Thurgood Marshall se tornou o primeiro negro a fazer parte da Suprema Corte dos Estados Unidos, depois de uma bem-sucedida carreira de defesa dos direitos da comunidade afro-americana. “Marshall: Igualdade e Justiça”, no entanto, se dedica a retratar um dos casos mais emblemáticos da carreira do jurista, quando defendeu um motorista negro da acusação de estupro a uma mulher branca. Enfrentando preconceito no tribunal e da opinião pública, Marshall (Chadwick Boseman) atua como um mentor para o advogado Sam Friedman (Josh Gad), que é obrigado a assumir o trabalho de inocentar o acusado. Com um clima parecido ao de um filme noir, “Marshall” retrata, com sutileza e eficiência, injustiças sofridas pelos negros na busca por direitos iguais.