Defensores de Black acusam santuário de maus-tratos e insistem em sua volta ao Zoo

O Jornal da Ipanema, da Rádio Ipanema, entrevistou, nesta quarta-feira (5), profissionais defensores da volta do chimpanzé Black, de 53 anos, ao Zoológico Quinzinho de Barros. Atualmente, o lar do animal é o Santuário de Grandes Primatas de Sorocaba, de cunho particular.

Em defesa do retorno de Black, foram entrevistados Neli Mergulhão, professora; e Roni Puglia, veterinário; ambos envolvidos com a campanha #VoltaBlack, página nas redes sociais que tem ganhado força com apoio de ativistas e simpatizantes com o caso. “Não podemos nos basear em achismo. Achar que ele está bem”, disse Neli. “Essa é uma análise técnica necessária para fazer”, completou Puglia.

Segundo a dupla, o secretário de Meio Ambiente, Parques e Jardins, Jessé Loures, junto a biólogo e servidores da Pasta, tentaram fazer uma visita ao bicho no Santuário, há cerca de 15 dias, porém, a equipe foi impedida “por falta de agendamento prévio”. A agenda foi feita e, quando chegou ao local, o grupo se deparou com Black “num quartinho, tudo limpinho”. Os profissionais reclamaram ao vivo da falta de transparência, ou seja, a visitação sem a necessidade de avisar ao local.

Roni Puglia e Neli Mergulhão defendem volta de Black ao Zoológico Quinzinho de Barros / Foto: Matheus Gonçalves

Uma decisão do Tribunal de Justiça do Estado determinou a transferência do animal para a sua nova casa até 5 de maio. Os defensores de Black aguardam novo julgamento para definição de onde Black deve morar.

Questionados por vários ouvintes, durante a entrevista, sobre o argumento de “manter o animal preso”, os profissionais rebatem  a acusação. “Lógico que ele não escolheu estar em cativeiro, lógico que o melhor local para ele seria a África, mas essa não é a realidade”.

A média de idade de um chimpanzé, criado em cativeiro, é de 55 anos. Mas, segundo Neli, Black, apesar de estar idoso, está “bem para a idade dele”.

Na tentativa de trazer Black ao Zoo, os profissionais têm mantido contato com o advogado da Prefeitura de Sorocaba. “Sou a favor que ele volte. Numa questão legal, Black é um patrimônio da cidade, o Zoo é patrimônio cultural. Ele passou 42 anos lá, agora ele está com 53. Ficar junto a outros animais sempre é importante”, defendeu Neli. “Ele não estava estressado, doente, nada. Por que não transferir uma fêmea do santuário para fazer companhia a ele no Zoo?. No zoo ele tem espaço quatro vezes maior [que o do Santuário]”, continuou.

Neli ainda denunciou que “é público que os primatas comem pizza, refrigerantes, doces. Isso pode levar os bichos à diabetes. Isso é questão de maus-tratos aos animais”.

Segundo Puglia, “Na hora que chegamos lá [no Santuário], ele nos reconhece. Pela proximidade que ele tem conosco, ele quer chamar nossa atenção. Ele precisa da nossa companhia, presença. Ele diz ‘quero ficar perto de você’. Não há nenhuma razão, origem de por que ele precisou ser removido”.

Neli ainda contestou os ativistas que defendem a permanência do animal no Santuário e criticou imagens divulgadas de Black no local. “As imagens que eles colocam nas redes sociais são aquelas que eles querem colocar. As imagens que eu vi são deprimentes. Funcionários beijando ele na boca. Assim como pegamos doenças de animais, eles pegam doenças de pessoas. Achei inadequado. Mas vi também imagens dele bastante nervoso com presença de pessoas”.

Puglia relatou que o animal está sendo visitado por leigos que atestam que ele “está bem, sem real conhecimento da causa”.

Além de enfatizar a vontade do retorno de Black, os profissionais destacaram positivamente o trabalho do Zoológico Quinzinho de Barros no tratamento médico veterinário e recuperação de animais. Segundo Neli, anualmente, 400 animais entre atropelados, vítimas de queimadas, agrotóxicos, são tratados no local. “Alguns voltam para a natureza, outros permanecem”.

Roni e Neli durante entrevista no Jornal da Ipanema / Foto: Matheus Gonçalves

A chegada de Black ao Santuário

Em 22 de maio, o site do Projeto GAP postou um artigo de autoria do Secretário Geral do Projeto GAP Internacional, Pedro A. Ynterian, intitulado “Black Falou! E a Justiça humana o escutou”. No texto, o profissional afirma que “Black, em sua forma de expressão, falou o que ele “não desejava”. E era ficar no zoológico”.

De acordo com o artigo, “uma semana após sua transferência para nosso Santuário, uma delegação do Zoológico foi visitá-lo, como estava previamente combinado, para avaliar como ele estava. Quando Black viu o pessoal do Zoológico ficou realmente bravo, pensou que novamente iriam tirá-lo do Santuário e devolvê-lo para o Zoo. Como não sabia o que estava acontecendo, começou a pedir ajuda ao nosso pessoal que o tinha trazido, para que não tirassem ele de lá”.

Ainda, Ynterian desafia quem defende a remoção do chimpanzé do santuário: “Aqueles que defendem sua permanência no Zoológico, os desafiamos que fiquem 1 semana naquele recinto, nas condições que Black vivia. Nunca mais defenderão manter chimpanzés em Zoológico nenhum”.

O texto informa que a rotina de Black no Santuário, “é muito diferente”. “Nós somos dos poucos Santuários no mundo em que os chimpanzés são totalmente livres dentro do território de seu recinto; eles têm acesso 24 horas ao dormitório, ao refeitório e à parte externa. Eles escolhem se dormem dentro ou fora. Fora tem casas altas, com cestos que dominam uma grande parte do Santuário e dos outros recintos. Essa liberdade não existe em nenhum Zoológico do Brasil ou do mundo, que eu conheça. Os chimpanzés da maioria dos Zoológicos ficam 14 horas por dia trancafiados em pequenos cubículos, junto com a comida e os roedores que rodeavam seus recintos e seus alimentos”.

No dia 13 de maio o Santuário divulgou as primeiras imagens do bicho no local.

Assista

Nota do santuário

“Em primeiro lugar, importante frisar que o jornal parte de premissa equivocada ao tratar Neli Mergulhão e Roni Puglia como ativistas. Ativistas são aqueles que entraram na Justiça pelo bem do animal, pelos direitos do Black, pessoas que não têm qualquer interesse financeiro na causa. Já os responsáveis pela campanha #volta Black são pessoas vinculadas por si ou por interpostas pessoas ao uso de animais como entretenimento e que chegam ao extremo de defender a vinda de uma girafa ao zoo de Sorocaba como aconteceu há alguns anos.

Todos os animais do Santuário recebem dieta equilibrada e adequada à sua espécie, sendo a dos primatas baseada em frutas, legumes, verduras, castanhas e sementes. Muitos recebem, a título de “agrado”, esporadicamente, alguma guloseima. Os provenientes de circos, por estarem muito acostumados, recebem comida caseira, o que ocorre, evidentemente, para propiciar um bom contato entre os animais e tratadores, o que facilita o manejo, além de ações de enriquecimento.

Veja que isso é rotineiro em zoológicos:

http://entretenimento.r7.com/bichos/noticias/hum-que-delicia-animais-de-zoologico-ganham-gelatina-e-sorvete-de-frutas-por-causa-do-calor-20121005.html?question=0

http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2012/09/animais-ganham-polenta-gelatina-e-ate-brigadeiro-em-zoologico-no-rs.html

http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2013/03/animais-ganham-ovos-de-pascoa-de-chocolate-especial-em-zoo-do-rs.html

https://www.hojeemdia.com.br/horizontes/bichos-do-zoo-de-bh-espantam-o-calor-com-picol%C3%A9s-de-gelatina-1.236774

Desde que chegou ao santuário, Black tem permanecido muito tranquilo, exceção aos dias em que foram visitados pela equipe do zoológico, quando apresentou sinais de medo e estresse, sendo que toda a adaptação, bem como esses episódios estão devidamente documentados em relatório técnico já protocolizado no processo judicial.

Os tratadores e a equipe técnica do santuário não se comportam de maneira inadequada com os animais, são treinados e extremamente experientes, inclusive com experiência internacional; são pessoas saudáveis que mantém contato próximo com os animais, mas jamais de forma inadequada. Aliás, pelas características do local, anos de trabalho e quantidade de primatas que tratam, as veterinárias do santuário são verdadeiras referências, não havendo, no país equipe que tenha conhecimento técnico em relação aos chimpanzés que sequer se aproxime ao delas.

Imprescindível esclarecer que o santuário é um mantenedor de fauna, devidamente registrado, licenciado e fiscalizado pelos órgãos competentes, mas que NÃO É ABERTO À VISITAÇÃO. O local não é autorizado, nem preparado para receber público o que envolve questões sérias de segurança.

A equipe da prefeitura foi gentilmente convidada a conhecer o local, em detalhes, visita essa que ocorreu em 15/05, com representantes do zoológico (veterinário, biólogo e tratador). Entretanto, na semana seguinte, dia 24/05, o senhor Jessé, acompanhado de mais quatro pessoas, apareceu no portão após o horário do expediente, sem qualquer aviso e telefonou para veterinária solicitando que o portão fosse aberto, pois queria visitar o local. Ele foi recebido pessoalmente, mas lhe foi esclarecido que ele não poderia entrar pois o expediente já havia se encerrado, não havendo pessoal disponível para acompanhá-lo, sendo-lhe solicitado que agendasse previamente a “visita”, o que efetivamente aconteceu na semana seguinte.

Note-se que a decisão judicial foi pela retirada do Black do zoológico, não havendo nenhuma determinação judicial para que a Prefeitura faça visitas a ele. Por uma gentileza, como gesto de boa fé e para auxiliar na remoção dele de modo menos traumático possível, permitimos as visitas. Aliás, no mesmo dia em que ele não entrou no local, o Dr. Promotor de Justiça que acompanha o caso esteve verificando a adaptação do Black, mas em horário apropriado, saindo do local poucas horas antes, portanto, nada havia a esconder.

Gostaríamos de frisar novamente que todos os argumentos usados para persuadir as pessoas a se voltarem contra a decisão de enviar o Black ao Santuário de Sorocaba nada mais são do que os mesmos sempre usados por pessoas que têm seus interesses econômicos atingidos por ações das diversas entidades protetoras dos animais.

Relevante mencionar também que essas pessoas alegam que o Black era saudável no zoológico, mas desconhecem que o próprio zoo juntou documento ao processo alegando justamente o contrário. Juntaram exame dizendo que o Black era doente renal e que, por isso, não poderia ser transferido ao Santuário.

Ocorre que no santuário o Black está tão bem, que nem mais apresenta os problemas de saúde que tinha no zoológico, sendo oportuno registrar que o zoológico, mesmo após solicitação formal do santuário, não forneceu às veterinárias nenhuma informação de saúde ou sua ficha clínica com seu histórico desses anos todos em que ele esteve lá custodiado.”

O chimpanzé e sua transferência

Black é um chimpanzé (Pan troglodytes) que chegou ao zoo de Sorocaba na década de 1970, quando foi resgatado de um circo.

Uma decisão do Tribunal de Justiça do Estado determinou a transferência do animal para a sua nova casa até 5 de maio. Mas a saída do animal do Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros para outro espaço ainda é contestada por especialistas e ativistas da causa animal que asseguram que os prejuízos a Black seriam bem maiores que os benefícios que a transferência poderia lhe trazer.

A ação que pede a transferência de Black do Parque Zoológico Municipal “Quinzinho de Barros” para o Santuário dos Primatas, em Sorocaba, foi impetrada pela Agência de Notícias de Direitos Animais (Anda). De acordo com o grupo, os chimpanzés são animais que devem viver em grupo, normalmente formado em média por seis animais. Black tem 53 anos e vivia sozinho em um recinto do zoológico de Sorocaba.

A Prefeitura de Sorocaba chegou a recorrer da decisão do Tribunal. Um dos principais argumentos é que Black, que vive no zoo de Sorocaba há 43 anos, onde chegou em 1.976 resgatado de atividades circenses, não se adaptaria com facilidade em um novo ambiente nessa altura da sua vida. Outra questão é que, para transportá-lo, o animal teria que permanecer anestesiado por um longo período, método não aconselhável pela idade avançada. Além disso, especialistas temem pela própria aceitação de Black pelos demais primatas, considerando o fato de que primatas são territorialistas.

Com uma rotina especifica, Black, segundo o Zoo “recebia cuidados, principalmente em suas refeições -, que inclui dieta balanceada. Ainda era estimulado a tomar banho de sol, se exercitar dentro de suas limitações pela idade que apresenta, e se relacionava bem com os demais primatas que vivem no local”.

7 Comentários

  1. Bem diferente do que falam por aí, o Sítio trata MUITO bem os animais. E o melhor, sem o estresse em que são submetidos quando estão em um zoológico. Falo por experiência própria, já que além de ter uma prima bióloga que trabalhou lá, e por alguns anos forneci material de construção para o local, junto a o Sr China e o Senhor Pedro Alejandro Ynterian. Não é essas coisas que vocês veem por aí, lá realmente os animais tem o respeito que merecem!

  2. Sou a favor do retorno do black para o ZOO de Sorocaba. No dia seguinte a sua chegada fecha-se o ZOO para qualquer tipo de visita publica, exceto para especialistas. Dessa forma, Black e demais animais ficam em paz. O que acham…..
    Manipulação de informações e imagens de ambos os lado. Chega a ser imoral essas posições.

  3. Nossa! Isso é santuário dos primatas? Grades, piso frio e grama rasa? Senti frieza e falta de ambiente natural. Agora além de Black de volta, que venham outros com ele. Isso de santuário, não tem nada.

  4. Achei que vocês fossem escutar os responsáveis pelo GAP sobre essas declarações! Assim poderíamos saber sobre as duas partes. Não é essa a obrigação da imprensa?

    • É só ver vídeos e matérias disponíveis pelo próprio GAP na internet, é público que eles alimentam os animais com suco de caixinha, guloseimas e outros alimentos totalmente errados, sem contar a falta de enriquecimento ambiental do local, as fugas e acidentes já relatados do local, inclusive com vítimas humanas sérias, o manejo que eles mesmo divulgam, não sou a favor de animais serem maltratados, sejam lá onde forem, mas a ideia que um “santuário” é uma solução mágica é errada e sem conhecimento profissional nenhum, o ativismo deveria ser direcionado para locais e animais que realmente estejam em risco e maltratados, não locais que são exemplos de cuidados, de recuperação de espécies e no caso do Black a transferência do Black está mais voltado pelo ego humano, que realmente a preocupação com seu real bem estar. Quem estuda primatas e sabe suas ligações e como é estabelecido dominância em grupo, nunca colocaria um animal já idoso desconhecido em um local com outros jovens já estabelecidos em bando que irão com certeza mostrar sua dominância impedindo ele de se alimentar, conviver etc. Sem contar que desrespeitaram totalmente a questão dele ser idoso e já acostumado com a rotina de tratadores, alimentação, manejo etc. Esse é um assunto que deve ser levada em consideração profissionais como biólogos, médicos veterinárias e não achismo. Sem contar q a falta de visitas impede de ver se algo está correto ou não, a visitação é maior forma de fiscalização, o q se precisa é educação ambiental para visitantes e pessoas em geral, o trabalho ex situ feito em zoo é uma das formas de preservação, animais que param em zoo não são retirados da natureza, eles provem de trafico, acidentes como atropelamentos, etc. O lado do GAP é exposto na internet, e quem tem bom senso, sabe ver, entende que tem muita coisa errada nessa transferência, ainda mais feita da maneira que foi… Só analisar os dois lados e ter bom senso! Sem deixar o emocional a frente e muito menos achar que santuário é algo mágico, pois não é, inclusive nem existe esse termo na legislação, ele é classificado como mantenedor de fauna.

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