CRÍTICA TEATRAL

Por José Simões de Almeida Júnior

Vereda da Salvação de Jorge Andrade (1922-1984), dramaturgo paulista, estreou na semana passada no Teatro Escola Mario Pérsico. A montagem foi resultado de um ano de trabalho na oficina Ator em Construção, contemplada no Edital de Formação da Prefeitura Municipal de Sorocaba – Secretaria de Cultura e Turismo, em 2018.

Escrito entre 1954 e 1963 o texto teve a sua primeira encenação pelas mãos de Antunes Filho, em 1964, no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). No elenco dessa montagem estavam Raul Cortez, Cleyde Yáconis, Aracy Balabanian, Stênio Garcia, entre outros. A peça na época dividiu a crítica e saiu logo de cartaz. Nem todo mundo gostou. O texto, contudo, se firmou com o tempo e é considerado um marco da dramaturgia nacional.

A trama tem como inspiração um fato ocorrido em 1955: a repressão policial e a morte de fanáticos religiosos da comunidade de Catulé, município de Malacacheta, no nordeste de Minas Gerais. Segundo Antonio Cândido a peça poderia ser descrita da seguinte forma: “a intriga é simples e densa. A peça flui do crepúsculo de um dia ao amanhecer do dia seguinte, num pequeno grupo de agregados, adeptos de uma seita em que traços adventistas se misturam a resquícios de catolicismo. Os figurantes estão nervosos, pois a ação começa na véspera de uma reunião anual com líderes vindos de fora, em que todos devem purificar-se a fim de receber a graça de Deus. Para isto, é preciso confessar publicamente as culpas. Perdoar e ser perdoado”

Na tragédia “Vereda da Salvação” não há lugar para concessões. Ali naquele espaço estão seres confinados e sem futuro. Diante desta realidade o que lhes resta é somente a sublimação. Viver na ficção da fé messiânica.

Na montagem dirigida por Mario Pérsico, com jovens atrizes e atores, antes de qualquer observação, é necessário destacar justamente o fato dessa montagem ser resultado de uma oficina, que propôs aos jovens artistas a possibilidade de adentrar e vivenciar o universo da dramaturgia de Jorge Andrade. É fundamental trabalhar com os jovens artistas a boa dramaturgia. “Bons textos são meio caminho andado para uma boa montagem.” Dizem alguns.

A encenação optou por não seguir a rubrica do autor em relação ao espaço cênico, que indica a criação de um espaço claustrofóbico, opressivo e quase sem saída, e ao contrário o encenador nos propõe uma passarela, um caminho processual no qual se apresentam em procissão as cenas e as personagens. Nesta vereda são apresentadas uma série de quadros pelos atores/coro que se tornam o ponto de partida das cenas. Tal procedimento faz lembrar os autos sacros do teatro medieval. Esta opção pelo espaço aberto/passarela, também, se reflete na encenação. As cenas finais não mantêm e perdem a tensão da opressão para o desfecho. A tensão física é substituída pela tensão poética. Parece haver esperança. Mesmo na morte.

A trilha musical escolhida causa estranheza. Isso porque há mistura gêneros. Há músicas consagradas, como o trenzinho caipira, e algumas “incelências” . Esta opção muitas vezes aproxima a música do efeito da música na cena e noutros momentos não estabelece o diálogo do som ou da música com a cena.

As interpretações como um todo são adequadas e têm fôlego. Mesmo diante dos enormes desafios é possível observar, neste elenco numeroso, a garra e boas qualidades cênicas.
No elenco temos como Artuliana: Gabriele Clemente; Manoel: Jefferson Pereira; Joaquim: Caio Cesar Cordeiro; Dolor: Valéria Nastri; Durvalina: Paulo Cesar Oliveira; Geraldo: Matheus Caruso; Ana: Rary Owen; Daluz: Giulia Palazzo; Pedro: Gustavo Moreno; Germana: Sandra Guaré; Conceição: Alexandra Dias; Onofre: Wellinton Pimentel/Mario Sergio Bacetti; Adão: Julio Cesar; Jonas: Lucas Reis; Homem: Yller Campione; Mulher I: Irene Meira; Mulher II : Carol Caçador.

Desse conjunto destacam-se: a composição forte, sedutora e marcante da personagem de Gabriele Clemente; a dualidade emocionada da dificílima personagem Dolor, composta por Valeria Nastri e, por fim, a corajosa construção da personagem Durvalina, que entre altos e baixos, faz uma das belas cenas da montagem, ao “fungar” pelo espaço à procura do “pecado que não foi revelado”. O grotesco messiânico se agiganta nesta cena interpretada por Paulo Cesar Oliveira.

“Vereda da Salvação” é um daqueles textos que eu, particularmente, não gostaria de assistir representando a dura realidade dos nossos dias. Todavia, o texto de Jorge Andrade é atual e necessário.

É preciso assisti-lo em cena. Causa-nos imensa perplexidade observar o que a falta de perspectiva, de condições econômicas, da opressão do capital, a fé cega e a consequente miséria cultural podem fazer com as pessoas. Um soco na boca do estômago. Não percam!

SERVIÇO
Dia 31 de janeiro – Quinta feira
19h
Teatro Escola Mario Persico
Rua da Penha, 823 – Centro
R$ 20 reais (inteira) e R$ 10 reais (meia entrada)
Fone: 3035.1566

José Simões de Almeida Júnior é graduado em biologia pela Puccamp; graduado em Artes Cênicas pela Unicamp; mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, doutor em Artes pela ECA-USP e pós-doutor pela Universidade de Coimbra, em Portugal. Foi professor adjunto do Departamento de Métodos e Técnicas, Teatro e Educação, da Faculdade de Educação (FAE) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); secretário da Cultura e secretário da Educação de Sorocaba/SP. Atualmente é professor da Faculdade de Conchas (Facon) e professor convidado da Universidade Mackenzie.