“Verão 90” e a programação da TV no início da década em que se passa a novela

TV Globo/Divulgação/Reprodução

Erick Rodrigues

Ainda é cedo para dizer se a novela “Verão 90”, que ocupa o horário das 19 horas da TV Globo há cerca de uma semana, vai fazer sucesso. Independente da capacidade da trama de Izabel de Oliveira e Paula Amaral em fisgar o espectador, no quesito saudosismo, o folhetim emplacou de cara. Bastou que as cores, as referências e as músicas da época começassem a aparecer para que o público expressasse essa nostalgia sobre a década de 90 nas redes sociais.

Começando pela abertura, com várias reproduções de símbolos do período e a música “Pump Up The Jam”, do grupo Technotronic, e analisando as primeiras cenas da novela, “Verão 90” faz das referências o atrativo principal da história, que tiveram, por enquanto, mais destaque do que o enredo do folhetim.

Depois de um período inicial na marcante década anterior, quando os três protagonistas participavam de um grupo infantil chamado Patotinha Mágica, a trama dá um salto para o ano de 1990, quando Manuzita (Isabelle Drummond) está tentando emplacar na carreira artística após o fim do grupo. Indo para um teste de elenco, ela reencontra João (Rafael Vitti), que também integrava a Patotinha Mágica, e os dois se apaixonam. Mais à frente, o encontro do grupo fica completo quando Jerônimo (Jesuíta Barbosa), irmão de João, descobre o relacionamento.

Embarcando nessa onda nostálgica da novela, você seria capaz de lembrar o que os personagens de “Verão 90” estariam vendo ao ligar a televisão naquele começo de década? Para refrescar a memória, resolvi listar quais eram as principais atrações que estrearam ou foram exibidas na TV no ano em que a trama é ambientada.

A TV BRASILEIRA EM 1990

TV Globo/Divulgação

– Tieta, a sucateira e Juma Marruá

No ano de 1990, foi ao ar o desfecho da novela “Tieta”, um dos maiores sucessos da TV Globo no gênero. Nos três primeiro meses daquela década, os espectadores viram o conflito ficar mais acirrado entre a protagonista Tieta (Betty Faria) e Perpétua (Joana Fomm), a vilã que teve sua careca reluzente revelada diante de todos os moradores de Santana do Agreste. Depois que a cidade fictícia foi encoberta por areia no capítulo final, o horário das oito passou a contar a história da sucateira Maria do Carmo (Regina Duarte), uma nova rica que propõe casamento a Edu (Tony Ramos), membro da uma tradicional família à beira da falência. A protagonista de “Rainha da Sucata” enfrentou, ao longo da trama, as vilanias de Laurinha Figueiroa (Glória Menezes), que foi capaz de se atirar de um prédio para ver a rival na cadeia. Enquanto a história da sucateira ia ao ar, na Manchete, “Pantanal” incomodava a Globo com a saga da família de José Leôncio (Cláudio Marzo) e o romance entre Jove (Marcos Winter) e Juma Marruá (Cristiana Oliveira), uma mulher que virava onça (literalmente!). Em outros horários, foram exibidos os desfechos do sucesso “Top Model” e da polêmica “Barriga de Aluguel”, que discutiu o direito de maternidade entre duas mulheres.

Reprodução/TV Cultura

– Rá-Tim-Bum

Em 1990, as crianças começaram a acompanhar o programa “Rá-Tim-Bum”, da TV Cultura, que depois passou anos sendo reprisado à exaustão pelo canal. Direcionada, inicialmente, a crianças em fase de pré-alfabetização, a atração logo ganhou o carinho de um público até um pouco mais velho, além dos pais, que acompanhavam por tabela. “Rá-Tim-Bum” contou com diversos quadros marcantes, como “Senta Que Lá Vem História”, “Zero e Zero-Zero” e “Euclides e Silvia”. Um dos personagens mais lembrados, até hoje, é o professor Tibúrcio (Marcelo Tas), que sempre aparecia com alguma lição para a classe de alunos do outro lado da telinha.

Divulgação/TV Globo

– “E o salário, ó!”

“Os Trapalhões” e a “TV Pirata” já eram sucessos do humor e continuavam em exibição naquele ano, mas, em agosto de 1990, a “Escolinha do Professor Raimundo” entrou no ar e, rapidamente, se tornou um dos programas mais populares da televisão, além de um dos mais copiados. A ideia de Chico Anysio, que trouxe o formato do rádio, era simples: colocar talentos da comédia em um mesmo ambiente e abusar de bordões e piadas rápidas. Foi nesse ano que o programa deixou de ser um quadro e passou a ocupar a grade da TV Globo. Grandes comediantes passaram pela sala de aula do Professor Raimundo, entre eles, Zezé Macedo, Tom Cavalcante, Cláudia Jimenez, Brandão Filho, Rogério Cardoso e o genial Walter D´Ávila.

TV Globo/Reprodução

– Duas loiras e uma morena

A apresentadora Xuxa Meneghel ganhou o título de Rainha dos Baixinhos por conta do sucesso que fazia desde a década anterior. Ela, no entanto, não estava sozinha na disputa pela atenção das crianças. Em 1990, a apresentadora estava no comando do “Xou da Xuxa” que, naquele momento, ocupava as manhãs da Globo há quatro anos. Dividindo o palco com as Paquitas e personagens como Dengue e Praga, Xuxa fazia gincanas, recebia atrações musicais e, claro, passava desenhos. Além do inegável sucesso de Xuxa, o público infantil também tinha a opção de acompanhar outra loira, que carregava uma pinta na perna. Angélica era a apresentadora do “Clube da Criança”, programa da Manchete que ela assumiu depois que Xuxa mudou para a Globo. A fórmula que mesclava brincadeiras e desenhos se repetia, assim como no programa “Show Maravilha”, do SBT, apresentado por Mara Maravilha, a morena que concorria com as loiras.

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– Os desenhos

As animações eram parte fundamental dos programas infantis da época, que competiam pelos melhores títulos para ter um elemento a mais na disputa pela atenção das crianças. Naquela altura, ainda reinavam absolutos os desenhos lançados na década de 80, como “Caverna do Dragão”, “He-Man e os Mestres do Universo”, “Thundercats”, “Ducktales – Os Caçadores de Aventuras”, “Ursinhos Carinhosos” e “Babar”. Em 1990, foram lançados outros desenhos que se tornariam sucessos entre a criançada, como “Capitão Planeta”, “O Fantástico Mundo de Bobby”, “A Pedra dos Sonhos” e “Tiny Toons”, ainda que alguns deles só viessem a estrear na TV brasileira no ano seguinte.

Divulgação/SBT

– Silvio Santos, Faustão e os programas de auditório

Apesar de já estarem no ar há vários anos, no início da década  de 90, os programas de auditório estavam no auge. No recém-batizado SBT, que deixou de se chamar TVS naquele ano, Silvio Santos seguia dominando os domingos da emissora. O “Programa Silvio Santos” reunia diversas atrações do Homem do Baú, como a “Porta da Esperança” e o sucesso do “Show de Calouros”, que vinha de um período de muita repercussão na década de 80. Na Globo, naquele período, o “Domingão do Faustão” era a atração principal nas tardes de domingo, com um Fausto Silva menos irreverente do que no programa “Perdidos na Noite”, mas que tentava manter a espontaneidade e o raciocínio rápido. Em 1990, Gugu Liberato estava no comando do “Viva a Noite”, no SBT, antes de ser levado para o “Domingo Legal” e, nessa linha de auditório, Jô Soares apostou no formato de talk show com o “Jô Soares Onze e Meia”, que quase nunca começava no horário do título.

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– “Está no ar a MTV Brasil”

Foi no dia 20 de outubro de 1990 que a MTV Brasil entrou no ar, com a mesma proposta do canal norte-americano de mesmo nome.  Foi a apresentadora Astrid Fontenelle que anunciou a estreia da emissora e ficou marcada como o primeiro rosto entre os VJ´s que apresentavam clipes no canal. A MTV, inclusive, foi a responsável por popularizar o videoclipe na TV brasileira. O primeiro que entrou no ar, aliás, no dia da estreia da emissora, foi uma versão de “Garota de Ipanema”, com Marina Lima. Depois, a MTV ganhou programas de comportamento, debate, viagem, games e outros gêneros. O canal mudou de mãos em 2013, deixou a TV aberta e passou a exibir outros formatos de atrações.

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– Mandela, Alemanha reunificada e o confisco das poupanças

Os telejornais das emissoras brasileiras, naquele ano, noticiaram fatos importantes do mundo todo. No Brasil, depois de tomar posse, o presidente Fernando Collor anunciou uma série de reformas econômicas que, entre outras medidas, confiscaram a caderneta de poupança da população; congelaram preços e salários; e mudaram a moeda corrente, do cruzado novo para o cruzeiro. Antes do susto econômico dos brasileiros, em fevereiro de 1990, Nelson Mandela, liderança contra o apartheid na África do Sul, foi libertado após passar quase 30 anos preso. A saída de Mandela da cadeia é considerada um fato histórico fundamental na criação de um novo país. Depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, o processo de reunificação da Alemanha se concretizou no ano seguinte e, oficialmente, o país passou a ser um só. Em Berlim, a festa se concentrou no Portão de Brandemburgo, onde o povo alemão comemorava a união.