“The Umbrella Academy” disfarça narrativa óbvia com personalidade estética e conflitos dos heróis

Divulgação

Erick Rodrigues

Como a moda da indústria do entretenimento são os heróis, é normal que eles surjam aos montes na televisão, no cinema e na literatura. Esse quase gênero se tornou um campo lucrativo e, em alguns casos, fértil, especialmente no cinema, que tem conseguido desenvolver melhor projetos relacionados a esses personagens. A TV, colocando o streaming nessa categoria, segue em busca de uma boa história de super-heróis para explorar, depois de contabilizar alguns fracassos e produções que, mesmo com resultados satisfatórios, ficaram pelo caminho. Com “The Umbrella Academy”, a plataforma Netflix pode ter condições de ocupar um espaço importante nessa área.

A série começa no fim da década de 80, com o nascimento de crianças cujas mães não estavam grávidas. O acontecimento misterioso chama atenção de Reginald Hargreeves (Colm Feore), um milionário que decide adotar sete desses bebês, que vieram ao mundo com habilidades especiais. Eles são treinados para combater o crime e formam o grupo conhecido como The Umbrella Academy, mas algumas experiências fazem com que os irmãos adotivos, aos poucos, se afastem e tornem a convivência familiar cada vez mais rara.

Os personagens voltam a se reunir, anos depois, com a morte do pai, cada um tendo seguido um caminho diferente e guardando a atuação em grupo apenas no passado. Com a notícia do falecimento, Luther (Tom Hooper), Allison (Emmy Raver-Lampman), Diego (David Castañeda) e Klaus (Robert Sheehan) revivem a convivência que tinham como parte da The Umbrella Academy, ainda que as lembranças do jeito autoritário do pai não fossem boas.

Durante esse período afastados, os irmãos também tiveram que lidar com a morte de Ben (Justin H. Min) e o desaparecimento de Número Cinco (Aidan Gallagher). Vanya (Ellen Page), a única da família sem habilidades especiais, tentou seguir uma vida considerada normal, apesar de sentir que sempre foi deixada de lado por não fazer parte do grupo de heróis.

Intrigados pela morte do pai, os irmãos adotivos se surpreendem quando Número Cinco reaparece e revela que tinha usado os poderes dele para viajar no tempo. Durante os anos em que esteve fora, o garoto sobreviveu em um mundo solitário, destruído por um apocalipse, e estava de volta para tentar impedir que esse futuro acontecesse.

Enquanto Número Cinco procura por pistas que o levem a quem desencadeou o apocalipse, ele é perseguido por uma organização responsável por garantir que o tempo e os acontecimentos sigam por um caminho pretendido. O grupo é representado pelo agentes Hazel (Cameron Britton) e Cha Cha (Mary J. Blige), além da Gestora (Kate Walsh), que desejam que o garoto não consiga modificar o futuro.

Divulgação

Baseada na série de quadrinhos de Gerard Way e Gabriel Bá, “The Umbrella Academy” nasceu com a intenção de se destacar em um universo cada vez mais comum aos espectadores. Diante disso, a produção apostou, especialmente, na construção de uma personalidade marcante para a história.

Começando pela estética, a atração mistura elementos modernos e antigos, inseridos harmoniosamente em um mesmo contexto. Essa estilização cria um mundo estranho, leve, divertido, sombrio e coerente com a sustentação de personagens excêntricos.

Além do resultado estético positivo, que já traz um frescor a esse universo de heróis, a construção dos personagens também é digna de elogios. Cada um tem uma identidade bem construída, carregando conflitos que, mesmo não sendo originais, são coerentes com as trajetórias particulares deles.

O roteiro acerta ao não limitar a profundidade dos conflitos dos personagens, restringindo-os a meros apelos estéticos. Por conta disso, mais do que marcados fisicamente, os protagonistas sofrem com o peso dos poderes que têm. Klaus, por exemplo, mergulha no universo das drogas e da bebida por conviver a “maldição” de ter contato com os mortos. Da mesma forma, Allison vive longe da filha por abusar dos poderes de manipulação e Luther é prisioneiro de complexos causados pela aparência e força incomuns. Até mesmo Vanya, que não tem habilidade especiais, tem questões e ressentimentos a resolver.

Esses bons elementos da trama acabam, de certa forma, disfarçando as escolhas óbvias do roteiro. Sem muito esforço, é possível entender logo os caminhos que a história vai percorrer, ainda que haja uma ou outra surpresa na jornada. A estética e a forma como os personagens são construídos rendem tanto que revelações previsíveis, por exemplo, sobre o vilão e o desencadeador do apocalipse acabam não comprometendo a experiência.

Rápida e excêntrica, “The Umbrella Academy” rende uma boa maratona de fim de semana, ainda que a história não tenha uma narrativa original. Com uma personalidade bem marcante, sustentada por elementos estéticos e personagens desajustados, a série insere rápido o espectador na jornada e alimenta a curiosidade por uma futura segunda temporada.

THE UMBRELLA ACADEMY (primeira temporada)

ONDE: Netflix (todos os episódios disponíveis)

COTAÇÃO: ★★★ (boa)