Segunda temporada de “Big Little Lies” não acrescenta nada à trama e nem precisaria existir

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Erick Rodrigues

Pensada inicialmente como uma minissérie, “Big Little Lies” bombou no Emmy 2017 e, depois, no Globo de Ouro do ano seguinte. Os prêmios vieram especialmente por conta do elenco de peso, mas é inegável que a produção conquistou um público cativo. O sucesso mudou os planos dos criadores e produtores executivos, que passaram a desenvolver uma continuidade para a atração, que deixou de ser uma série com data para acabar e se transformou em uma possibilidade de entretenimento mais duradouro. Analisando os sete episódios apresentados na segunda temporada, é possível perceber que essa não foi uma boa escolha.

Todos os (poucos) acontecimentos de “Big Little Lies” são desencadeados a partir da morte de Perry (Alexander Skarsgard), empurrado de uma escada, no fim da primeira temporada, depois de agredir a mulher, Celeste (Nicole Kidman). Traumatizada com o evento, ela tenta voltar à rotina normal com os filhos, mas recorre a medicamentos e relações sexuais com estranhos para tentar superar a perda. Apesar do marido não estar mais lá, Celeste ainda é influenciada pelos sentimentos contraditórios causados por aquele relacionamento tóxico, baseado em desejo e violência física.

Não é só Celeste que se mostra afetada pela morte de Perry. As amigas, que estavam com ela na hora da queda, em maior ou menor intensidade, também sentem esses efeitos. Bonnie (Zoë Kravitz), responsável pelo empurrão que matou Perry, tenta conviver com a culpa pelo ato. Isso altera a rotina dela com a família, ficando sempre distante e angustiada com as mentiras contadas naquela noite.

Jane (Shailene Woodley) é outra traumatizada pelas consequências da morte de Perry, especialmente aquelas que atingem o filho Ziggy (Iain Armitage), fruto do estupro praticado pelo marido de Celeste. Madeline (Reese Witherspoon) enfrenta uma crise no casamento por conta dos segredos guardados por ela e que envolvem, além do empurrão, uma infidelidade. Já os problemas de Renata (Laura Dern) vão mais longe do que a manutenção do segredo do grupo. Em processo de falência, o marido e ela começam a vender todos os bens e perdem o status social construído ao longo dos anos.

A morte de Perry traz à tona uma ameaça ainda maior ao grupo. Mary Louise (Meryl Streep), mãe do marido agressor, chega à cidade convencida de que algumas peças sobre o destino do filho não se encaixam. Além de suspeitar de Celeste e duvidar das agressões e do estupro praticado por Perry, ela passa a rondar as amigas da nora para descobrir o que de fato ocorreu naquela noite. Mary Louise ainda tenta ficar com a guarda dos netos, alegando que Celeste não tem capacidade de tomar conta deles.

Diante da repercussão positiva da primeira temporada e dos ganchos que poderiam ser explorados, “Big Little Lies” ganhou novos episódios, mas eles só serviram para evidenciar que a série não tinha tanto fôlego assim. Sustentado apenas pelos efeitos causados pela morte de Perry, o segundo ano mostrou que os conflitos individuais das personagens foram prolongados sem necessidade, com as protagonistas presas em problemas rasos e limitados, que poderiam ter sido incorporados e resolvidos na temporada anterior.

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Com pouca ação a ser desenvolvida, a série se sustentou em repetições e enfraqueceu as personagens. Sem qualquer exagero, dos sete episódios da segunda temporada, cinco não precisariam nem existir e os outros dois poderiam ter sido incorporados ao planejamento do primeiro ano, mantendo o status de minissérie da produção.

Diante de tantas repetições e da falta de novos acontecimentos, “Big Little Lies” deixou para o último episódio a exploração das melhores histórias, como, por exemplo, a relação entre a violência de Perry e a criação abusiva dada pela mãe. A participação de Meryl Streep na série se justificou apenas por esse final, depois da personagem ter passado todos os episódios anteriores espreitando as protagonistas como uma sombra. Essas características da trama poderiam ter surgido antes e gerado bons conflitos à narrativa, mas esse potencial acabou desperdiçado.

As personagens de Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Shailene Woodley e Zoë Kravitz também passaram a temporada mal aproveitadas e em ações repetitivas. Laura Dern foi a que se deu melhor, ganhando mais tempo de tela e sendo contemplada com as sequências mais interessantes. É necessário fazer aqui um elogio à atriz, que, com frequência, pega personagens menores e rouba a cena.

Diante desse vazio do roteiro, o que prende a atenção do público é a direção eficiente de Jean-Marc Vallée, o inegável capricho técnico da série e, especialmente, o desempenho do elenco, que consegue “tirar leite de pedra” e aproveitar os poucos conflitos da história, mesmo as atrizes que engataram o piloto automático, como Reese Witherspoon e Nicole Kidman.

“Big Little Lies” poderia ter terminado com apenas uma temporada, ganhando uns dois episódios a mais para resolver os conflitos provocados pela morte de Perry. Os bons resultados alcançados, no entanto, estimularam um segundo ano que não acrescentou nada à trama. Conflitos praticamente inexistentes e exaustivas repetições esvaziaram as personagens e deixaram o público com um interesse praticamente nulo pelo futuro da história.

BIG LITTLE LIES (segunda temporada)

COTAÇÃO: ★★ (regular)