Parceria entre Marvel e Netflix termina com três boas séries e outras três que não funcionaram

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Erick Rodrigues

Um desentendimento sobre planejamento e questões criativas gerou, no ano passado, o cancelamento de três séries da Marvel, feitas em parceria com a plataforma de streaming Netflix. A confirmação do fim de “Demolidor”, “Punho de Ferro” e “Luke Cage” provocou, rapidamente, uma avalanche de críticas e lamentos de fãs, que foram às redes sociais protestar. No caso da trama do vigilante de Hell´s Kitchen, até uma petição foi criada para tentar resgatar a atração.

Agora, as últimas produções remanescentes da parceria entre Marvel e Netflix tiveram o fim sacramentado. “Jessica Jones” ainda vai exibir, neste ano, os episódios de uma terceira temporada antes de ser interrompida. Já “O Justiceiro”, que estreou o segundo ano em janeiro, não deve ganhar novos capítulos e já está oficialmente encerrada.

Com os últimos cancelamentos, encerra-se um ciclo de parceria entre as duas empresas de entretenimento. Apesar dos pedidos de espectadores, a curto prazo, parece improvável que essas séries sejam resgatadas por outro serviço de streaming. Fala-se que um dos destinos possíveis pode ser a nova plataforma de conteúdo da Disney, dona da Marvel, mas isso só poderia acontecer  a partir do ano que vem. Executivos do Hulu, concorrente da Netflix, já afirmaram que estariam abertos a receber as séries canceladas. Para isso, usam como argumento um acordo já firmado com a Marvel para a produção da série “Os Fugitivos” e de animações. Só o tempo vai esclarecer esse futuro.

Fazendo um balanço das séries lançadas da parceria Marvel/Netflix, é possível identificar acertos e erros na mesma proporção, que podem ser reaproveitados ou, se for o caso, corrigidos em um possível resgate das atrações. Vamos ver quais foram as produções que deram certo durante esse período e outras que não saíram como esperado.

SÉRIES QUE DERAM CERTO

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– Demolidor

A série sobre o vigilante de Hell´s Kitchen teve uma terceira temporada das mais interessantes e, por isso, causou espanto o anúncio do cancelamento de “Demolidor”. Nem mesmo a audiência podia ser usada como justificativa, já que os números não eram considerados insatisfatórios pela Netflix. O problema com a Marvel era maior e envolvia questões criativas e de planejamento dos episódios, o que é uma pena. A produção teve três temporadas sólidas, sempre focadas em uma abordagem madura do personagem. Em determinado momento, o advogado Matt Murdock (Charlie Cox) entra em crise com a personalidade que assume para defender o bairro de Nova York, o que deu mais força para a história da série. A trama também se beneficiou muito da complexidade dada pelo grande vilão Wilson Fisk (Vincent D´Onofrio), que teve um retorno triunfal na terceira temporada. Com certeza, uma produção que vai fazer falta.

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– Jessica Jones

A detetive particular com uma força impressionante e que vive bêbada teve uma primeira temporada muito boa, sustentada pelo conflito entre Jessica Jones (Krysten Ritter) e o vilão Kilgrave (David Tennant), que exercia influência sobre a personalidade conturbada da heroína incomum. O fantasma do antagonista continuou presente no segundo ano, que focou mais nas jornadas pessoais dos personagens e revelou detalhes sobre o passado da protagonista. “Jessica Jones” amadureceu com o tempo, mas registrou um problema que seria recorrente nas séries da Marvel: o número de episódios eram, claramente, sempre maiores do que as histórias, o que criava a necessidade de prolongar acontecimentos e, no português claro, enrolar o espectador. Ainda assim, vale a pena!

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– Luke Cage

Com uma ótima trilha sonora e vilões interessantes, “Luke Cage” fortaleceu a construção do universo Marvel na Netflix com o lançamento da primeira temporada. A luta do protagonista com pele impenetrável para a proteção do Harlem rendeu bons conflitos, especialmente por conta da disputa por poder de Cornel (Mahershala Ali) e Mariah (Alfre Woodard), esta última crescendo mais na segunda temporada. A guerra pelo comando do bairro ganha novos contornos no segundo ano, quando Luke Cage também passa a enfrentar algumas questões mal resolvidas do passado. Apesar da boa condução da história, a série também sofreu com a duração arrastada e desnecessária dos episódios, apenas com a intenção de seguir o número padronizado para as produções. Ainda bem que o resultado final não foi tão comprometido.

SÉRIES QUE NÃO FUNCIONARAM

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– Punho de Ferro

Essa é, sem sombra de dúvidas, a pior produção da Marvel na parceria com a Netflix. “Punho de Ferro”, desde o primeiro episódio, apresentou uma trama pouco atrativa e arrastada, difícil de acompanhar. Soma-se a isso o fato de ser a atração do gênero com menos personalidade própria, que parece não entender bem as nuances do protagonista Danny Rand (Finn Jones), ao contrário das demais, que conseguem refletir as características dos personagens nos conflitos, na estética e, até mesmo, na trilha sonora. Apostando em elementos copiados de outras atrações do mesmo universo, “Punho de Ferro” até melhora um pouco na segunda temporada, mas o estrago já estava feito. Houve um ponto positivo: a série aproveitou o segundo ano para corrigir o problema sobre a duração dos episódios, algo que prejudicou outras produções do mesmo universo.

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– Os Defensores

A reunião dos protagonistas das séries “Demolidor”, “Jessica Jones”, “Luke Cage” e “Punho de Ferro” não pode ser considerada ruim, mas deixou bastante a desejar. Aguardada com expectativa, “Os Defensores” teve um começo arrastado e, apesar da duração reduzida de episódios, traz uma trama que demora a engrenar, o que deixou alguns fãs decepcionados. O fato é que a união dos personagens não tem a força que se esperava, além de colocá-los contra uma ameaça pouco atrativa, representada por Alexandra (Sigourney Weaver), a líder d´O Tentáculo, uma organização misteriosa que só fica interessante nas séries individuais dos heróis. Apesar de até funcionar como um entretenimento para passar o tempo, “Os Defensores” não foi, nem de longe, o que pretendia ser.

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– O Justiceiro

Inserido em “Demolidor”, o personagem central de “O Justiceiro” ganhou vida própria, mas os conflitos dele não foram capazes de sustentar grande interesse pela série. Protagonizada por Jon Bernthal, que consegue transmitir bem os conflitos e angústias do homem com sede de vingança, a produção não empolga, especialmente, por conta de um roteiro que demora a engrenar. “O Justiceiro” envolve o protagonista em uma trama que mescla mistério e questões governamentais, mas que sequer aguça a curiosidade do espectador pelo desfecho. Com uma abordagem de personagem muito madura, a impressão que fica é que o Justiceiro poderia ser melhor aproveitado como um coadjuvante, tendo pouca força para sustentar sozinho uma série.