Narrativa de “Olhos que Condenam” provoca reflexão necessária sobre injustiça e preconceito

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Erick Rodrigues

A diretora Ava DuVernay sempre conseguiu imprimir intensidade e gerar reflexão com seus trabalhos. A primeira vez que fiquei impactado com a força de uma narrativa comandada por ela foi no filme “Selma”, sobre um importante episódio da luta por direitos civis nos Estados Unidos. Depois, a cineasta impressionou com o documentário “13ª Emenda”, que discutiu a forma como os negros são afetados por uma emenda da Constituição norte-americana. Como se não bastasse, Ava é, agora, a responsável por uma das melhores minisséries dos últimos tempos, “Olhos que Condenam”, que emplacou 16 indicações ao Emmy 2019.

Da mesma forma que nos trabalhos anteriores, a diretora e roteirista usa a realidade para criar uma narrativa poderosa sobre preconceito e injustiça. A minissérie, de apenas quatro episódios, se baseia no caso dos “Cinco do Central Park”, adolescentes negros julgados e condenados por um crime que não cometeram, vítimas de racismo e de uma investigação caótica e direcionada para produzir condenações a partir de coações e evidências inconsistentes.

Em abril de 1989, o grupo de jovens estava no Central Park, em Nova York, na mesma noite em que uma mulher foi agredida e estuprada. Assim que a polícia tomou conhecimento do crime e iniciou buscas na região, soube, também, que adolescentes estavam fazendo “baderna” no parque, o que os tornou automaticamente suspeitos.

Dos cinco jovens levados à delegacia, apenas quatro estavam, de fato, no Central Park naquela noite. Korey (Jharrel Jerome), simplesmente para não deixar o amigo Yuseff (Ethan Herisse) sozinho, acaba virando suspeito do crime com os outros.

Assim, Antron (Caleel Harris), Raymond (Marquis Rodriguez), Kevin (Asante Blackk), Yuseff e Korey passam a ser vítimas de uma série de injustiças, comandadas pela promotora Linda McCray (Felicity Huffman), que, mesmo sem nenhuma prova contra os garotos, se dedica a mostrar que eles foram os responsáveis pelo estupro.

Os cinco jovens são enganados durante o interrogatório policial e coagidos a confessar as participações no crime, sempre conduzidos por uma narrativa já construída pelas autoridades, ainda que sem qualquer comprovação. Interrogados sem a presença dos pais ou advogados, eles acabam induzidos a assumir o estupro. Eles eram só adolescentes e não tinham ideia que, naquela noite, já entraram na delegacia condenados, antes mesmo do julgamento.

Depois de retratar a noite do crime e o absurdo julgamento que condenou os garotos, “Olhos que Condenam” mostra o que aconteceu com os jovens depois de definidas as penas pelo estupro. Quatro deles são enviados a instituições para adolescentes infratores enquanto Korey, o único que já tinha 16 anos completos, vai direto para a cadeia.

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“Olhos que Condenam” é uma minissérie tão incômoda quanto necessária. A narrativa conduzida por Ava DuVernay provoca os mesmos efeitos que um soco na boca do estômago, colocando o espectador em contato com injustiças cruéis que impactaram definitivamente a vida de cinco adolescentes inocentes, condenados pela cor da pele e por um sistema desumano.

Apesar de ser uma história real, com um desfecho já conhecido, é inevitável torcer para que os protagonistas tenham um destino diferente. A realidade, no entanto, se impõe e todo o processo de condenação dos adolescentes vai gerando uma profunda indignação sobre como as vontades e preconceitos de autoridades macularam o direito a um julgamento justo, que deveria ser dado a qualquer cidadão. Também é muito forte ver o impacto de tudo isso no futuro desses jovens e das famílias, vítimas de um dos maiores erros do sistema judiciário norte-americano.

Muito mais do que causar indignação, “Olhos que Condenam” gera reflexões fundamentais, que podem nos tirar de uma posição confortável e fazer com que sejamos mais atentos a problemas que atingem outras pessoas e que, muitas vezes, podem ser encarados com desconfiança e até desprezo. Olhar para o outro e se colocar naquele lugar, ainda que não consigamos sentir tudo da mesma forma que a vítima daquele preconceito ou injustiça, é algo esclarecedor e essencial.

Além do trabalho de Ava DuVernay, vale destacar o desempenho do elenco, responsável por agigantar a narrativa e as reflexões que surgem dela. Alguns dos atores inclusive, como Jharrel Jerome, foram reconhecidos com indicações ao Emmy.

É impossível ficar indiferente a “Olhos que Condenam”, uma história intensa e necessária sobre como a injustiça e o preconceito podem provocar efeitos devastadores sobre a vida das pessoas. E se, depois da minissérie, você tentar justificar ou minimizar os acontecimentos e atitudes que condenaram aqueles jovens, sinto dizer, mas você faz parte do problema.

OLHOS QUE CONDENAM

ONDE: Netflix (todos os episódios disponíveis)

COTAÇÃO: ★★★★★ (excelente)