Narrativa de “Chernobyl” mostra que melhor ficção não chega aos pés do horror da realidade

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Erick Rodrigues

Acontecimentos retratados em uma ficção e exibidos para espectadores confortavelmente acomodados jamais vão conseguir transmitir a mesma intensidade de reações em comparação com a realidade. Produtos de dramaturgia, como filmes e séries, em determinados casos, assumem a função de se aproximar dessa realidade para fazer com que o público sinta uma parte mínima de um fato relevante. Considerando que “Chernobyl”, minissérie da HBO sobre o mais grave acidente nuclear da História, consegue impressionar e horrorizar o espectador com essa percepção limitada sobre o episódio, é possível sentir que o sofrimento causado ali foi imensamente maior do podemos imaginar.

Em cinco episódios impecáveis, a minissérie retrata as causas e consequências da tragédia provocada por um conjunto de erros, que envolvem irresponsabilidade, mentiras e decisões políticas. Em um primeiro momento, a produção foca na explosão do reator Número Quatro da Usina Nuclear de Chernobyl, próxima da cidade de Pripyat, na Ucrânia, até então parte da União Soviética. Com o núcleo do reator exposto, radiação em quantidade inimaginável começa a ser liberada pela estrutura, causando reações imediatas em muitos trabalhadores da usina e socorristas chamados ao local.

Mesmo diante de tamanha tragédia, a primeira medida de algumas figuras de comando do regime soviético é negar a gravidade dos fatos, pensando nos efeitos do acidente para as políticas interna e externa. Por conta disso, por exemplo, o governo determina que o raio de isolamento e evacuação de pessoas seja menor do que o necessário, algo constatado por Valery Legasov (Jared Harris), especialista que passa a analisar a explosão e propor soluções.

Mais do que mostrar efeitos imediatos, “Chernobyl” procura reforçar que as consequências da explosão do núcleo do reator seriam vistas daquele momento, em 26 de abril de 1986, a perder de vista, dado o nível de radiação liberada, que sequer podia ser medida pelos aparelhos que estavam à disposição dos funcionários.

Depois da explosão, a minissérie começa a mostrar o trabalho de análise e investigação de Legasov e Ulana Khomyuk (Emily Watson), que tentam entender como o núcleo de um reator nuclear explodiu, algo até então considerado impossível, especialmente se medidas criadas para evitar esse problema tinham sido adotadas, como parecia ser o caso. Esse trabalho culmina no julgamento dos homens apontados como culpados pelos erros que desencadearam aquele fato.

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Algo, no entanto, precisava ser dito além disso tudo. Mais do que apontar as falhas humanas que ocorreram horas antes da explosão, Legasov expõe a responsabilidade do governo soviético sobre a explosão em Chernobyl. Isso faz com que ele pague um preço por desafiar um regime que não tolerava contestações e que era formado por um estrutura de poder que estimulava alguns comportamentos apontados naquele julgamento.

Com uma narrativa intensa, “Chernobyl” tem como maior qualidade o fato de conseguir transmitir ao espectador uma parte do horror causado pela explosão do reator. Esse sentimento causado, que é uma mísera parcela do que os afetados pela tragédia viveram, acaba nos mostrando que talvez nós nunca poderemos imaginar o tamanho do desespero, tristeza e sofrimento provocados pelas mentiras e irresponsabilidades vistas ali.

O roteiro, bem escrito e explicativo, sem cair no didatismo barato, tem muito a contribuir, também, com discussões bastante atuais. Uma delas está relacionada a valores como liberdade, democracia e transparência, que, apesar de questionados por alguns e com as possíveis falhas que podem surgir deles, ainda são os melhores caminhos para a política e a vida em sociedade.

A minissérie da HBO ainda estabelece uma conexão importante com uma tragédia sentida pelos brasileiros, mesmo que possa ser considerada de menor proporção. Na explosão do reator de Chernobyl e no desastre do rompimento da barragem de rejeitos de Brumadinho, há algo em comum: em ambos os casos, a opção por economizar gastos se sobrepôs ao valor das vidas afetadas pelas consequências dessas escolhas. A opção por uma barragem a montante, mais barata do que os modelos mais seguros, expôs pessoas, animais e a natureza a riscos absurdos, assim como a economia feita na estrutura que poderia ter impedido a explosão do reator nuclear.

Sem sombra de dúvidas, “Chernobyl” é uma das melhores minisséries já produzidas nos últimos anos. Bem-sucedida em refletir uma parcela da tragédia nuclear, a produção acaba dando a dimensão de que aquela ficção, apesar de assustadora e impressionante, sequer chega aos pés do horror das consequências vividas por quem foi afetado pela realidade dos fatos. Só isso já seria suficiente, mas o roteiro ainda permite que o público faça associações e reflita sobre muitos aspectos relevantes dos dias atuais.

CHERNOBYL

ONDE: HBO e HBO GO

COTAÇÃO: ★★★★★ (excelente)