Episódio duplo confirma “Sob Pressão” como melhor série brasileira no ar atualmente

Divulgação/TV Globo

Erick Rodrigues

As séries brasileiras têm mostrado um significativo aumento de qualidade nos últimos anos, mas, ainda assim, o gênero segue tendo muitas limitações, que impedem que esses produtos decolem e ganhem popularidade no país da telenovela. Já há algum tempo, “Sob Pressão”, seriado médico exibido pela TV Globo e disponível no Globoplay, mostra que faz a diferença na programação e merece ser considerado a melhor produção desse formato no ar atualmente.

Exibido, nesta semana, em dia excepcional, por conta da transmissão do jogo do Brasil na Copa América, “Sob Pressão” apresentou um episódio duplo que só confirmou que a série merece mesmo o título de melhor. Além de mais tempo de duração, os capítulos trouxeram um apuro técnico digno de todos os elogios, com um preparo e ousadia que fazem falta à televisão brasileira.

Depois de uma segunda temporada que mergulhou no aspecto político da saúde pública brasileira, “Sob Pressão” passou a focar nas dificuldades que o hospital São Tomé Apóstolo enfrenta todos os dias para atender aos pacientes, que vêm, especialmente, da comunidade nos arredores da unidade. A convivência das pessoas com a violência, que afeta diretamente a rotina da instituição de saúde, dominou o episódio duplo da série, exibido nesta quarta-feira (26).

Depois de ceder à necessidade de aceitar ajuda de um miliciano para salvar uma paciente, que precisava de um aparelho caro para sobreviver, o hospital se vê no centro de uma guerra entre a polícia e integrantes da milícia local. Durante um mutirão para desafogar as filas de atendimentos, os médicos são feitos reféns pelo chefe da milícia, que exige que Carolina (Marjorie Estiano) e Evandro (Júlio Andrade) o operem sem que os policiais sejam avisados. Para isso, além de ameaças com armas de fogo, o criminoso cobra um favor pela ajuda dada na compra do equipamento.

Quando a tentativa de esconder o miliciano falha, médicos, enfermeiros e pacientes são inseridos na guerra entre os criminosos e a polícia. Os bandidos se isolam na enfermaria do hospital, colocando as vidas dos pacientes em risco. A situação piora depois que há uma tentativa de resgate dos integrantes da milícia, transformando a unidade de saúde em um trincheira.

Divulgação/TV Globo

O episódio duplo de “Sob Pressão” apresentou ao público uma ousadia que, mesmo não sendo percebida por alguns, fez toda a diferença no resultado final. A direção da série usou planos-sequência para registrar a ação da história, sem que houvesse qualquer corte de edição. A prática exige um rigoroso planejamento e sincronia de todos os envolvidos, já que o mínimo erro exigiria que tudo fosse refeito. Isso impactou profundamente no ritmo dos episódios, que ganharam em agilidade e geraram tensão no espectador, que parecia estar inserido naqueles conflitos.

Analisando tudo o que já foi apresentado da terceira temporada, a série tem um roteiro muito interessante, que se inspira em produções médicas internacionais, mas usando elementos da realidade do serviço de saúde brasileiro. Em meio a críticas sobre as dificuldades que a área enfrenta, como a falta de equipamentos e itens básicos para socorrer pacientes, “Sob Pressão” ainda encontra espaço para discutir outros temas relevantes, como violência contra a mulher, abuso de drogas e conflitos familiares.

Também é importante fazer um elogio ao elenco. Além de Marjorie Estiano e Júlio Andrade, as participações de Pablo Sanábio e Bruno Garcia, além da recente adesão de Drica Moraes, é um ingrediente fundamental para o sucesso da produção. A escolha do elenco coadjuvante, que integra a trama de forma rotativa, é outro diferencial.

Se cabe alguma crítica à produção, ela está na duração dos episódios normais, detalhe que acaba abreviando algumas tramas e faz com que elas sejam resolvidas de forma apressada. Uma solução para esse problema poderia ser reduzir o número de casos por episódio, o que já está sendo visto na temporada. Para alguns personagens, inclusive, os roteiristas acabam prolongando essas participações em mais capítulos. A série também precisa tomar cuidado com a repetição de temas abordados, o que pode desestimular o espectador.

“Sob Pressão” segue com a exibição dos episódios da terceira temporada, que promete ser a última, conforme anunciado. Se a melhor série no ar atualmente, feita em parceira entre a Globo e a produtora Conspiração Filmes, realmente chegar ao fim agora, vai ser uma pena. Mas, se isso acontecer, espero que produtores do gênero estejam acompanhando a ótima dramaturgia médica para criarem produtos que se igualem em qualidade.

SOB PRESSÃO (terceira temporada)

ONDE: TV Globo (toda quinta-feira) e Globoplay

COTAÇÃO: ★★★★ (ótima)