“Bom Sucesso” é um alívio aos textos pobres e repetições do gênero

Divulgação/TV Globo

Erick Rodrigues

Para um entusiasta da telenovela, como eu, não tem sido fácil ficar preso a um folhetim nos últimos tempos. De uma forma geral, a maioria das obras no ar atualmente vive de repetições e textos pobres, que subestimam e até desrespeitam o telespectador, contribuindo, inclusive para que o público migre para outras formas de entretenimento e plataformas. Em meio a tudo isso, é um alívio assistir “Bom Sucesso”, um oásis no deserto das atuais opções desestimulantes.

Escrita por Rosane Svartman e Paulo Halm, a novela das 19 horas da TV Globo busca inspiração no mundo dos livros para contar a história de Paloma (Grazi Massafera), uma costureira apaixonada por leitura e que deixou para trás os estudos para cuidar dos filhos. A mais velha, Alice (Bruna Inocêncio), nasceu quando a protagonista ainda era uma adolescente, fruto de um relacionamento com Ramon, que foi embora do Brasil para tentar uma carreira como jogador de basquete nos Estados Unidos.

Paloma tem, ainda, outros dois filhos de um segundo relacionamento: Gabriela (Giovanna Coimbra) e Peter (João Bravo). Depois de ficar viúva precocemente, a protagonista assumiu sozinha as rédeas da família, conciliando a maternidade com uma jornada pesada de trabalho, entre faxinas, costuras e um emprego fixo em uma loja. Por ser o centro desse núcleo familiar, a personagem fica abalada quando tem um exame trocado no laboratório e começa a pensar que tem uma doença incurável.

Com uma perspectiva curta de vida, Paloma entra em contato com Ramon (David Junior) e revela o diagnóstico. Ele, então, larga a vida que tinha construído no exterior, ainda que não fosse a que ele sonhava, e volta para ficar com a protagonista. Durante esse período de emoções à flor da pele, a personagem também se envolve com Marcos (Rômulo Estrela), o mulherengo dono de um bar que se encanta por ela e descobre um interesse em comum: a paixão pelos livros.

O sofrimento de Paloma dura pouco, já que o laboratório desfaz o engano e admite que o exame da personagem foi trocado com o de Alberto Prado Monteiro (Antônio Fagundes), o dono de uma editora de livros. Os caminhos da história levam Alberto e Paloma a se tornarem próximos, compartilhando o fascínio pelo mundo da literatura e as características da vida de cada um.

Antes de tudo, é preciso dizer que é muito importante que “Bom Sucesso” fale da importância e da beleza da leitura em um momento como esse, em que o valor do conhecimento é tão maltratado. É muito prazeroso ver, em um produto televisivo popular, homenagens a autores e livros, seja através de simples citações ou de cenas fantasiosas inspiradas em histórias clássicas. Os livros transformam vidas e não têm espaço apenas em rotinas de pessoas eruditas, podendo fazer a diferença, também, no dia de uma pessoa simples, que se entrega à leitura ainda que seja pelo tempo de uma viagem de metrô.

Divulgação/TV Globo

Rodeada por muita falta de criatividade e roteiros didáticos, “Bom Sucesso” se destaca pelo texto bem humorado e inspirado. Ainda ficando no tema dos livros, o folhetim apresentou, nos últimos dias, diálogos que implicitamente falavam sobre uma ainda atual perseguição ao conhecimento. Sem sisudez, a trama mostrou livros sendo queimados e associou essa atitude a regimes autoritários e fanáticos, o que levanta uma discussão muito importante sobre o momento em que estamos vivendo.

Além da literatura, o texto dos autores também se mostra muito sagaz na retratação do mundo das celebridades, especialmente através de Silvana Nolasco (Ingrid Guimarães), uma atriz que vive no centro de um universo fabricado de likes, mentiras e barracos midiáticos. Algumas das situações e falas da personagem expõem as fragilidades e até um lado ridículo da fama a todo custo.

É preciso chamar atenção, ainda, para a forma como “Bom Sucesso” retrata temas mais sérios, como bullying, violência e drogas. Inseridos nessas tramas, os personagens nunca adotam pregações baratas, sempre vivenciam e debatem esses assuntos de uma forma muito crível, natural. Vai aqui, também, um elogio para a forma como a dupla de autores, auxiliados por uma equipe de colaboradores, constrói os diálogos sem a preocupação com formas ou abordagens que poderiam até, em alguns momentos, serem considerados não usuais para o horário.

“Bom Sucesso” é um êxito até aqui também por conta do elenco, em geral, muito bom. Grazi Massafera, já muito criticada, está no melhor momento da carreira, retratando bem a simplicidade, o carisma e a luta de Paloma. As cenas da atriz com Antônio Fagundes, mais uma vez ótimo, são sempre afetuosas e divertidas. Fagundes, aliás, construiu o personagem muito bem, dosando perfeitamente firmeza e carinho. Ingrid Guimarães, Armando Babaioff, Rômulo Estrela e Fabíula Nascimento são outros que merecem reconhecimento.

É bom ligar a televisão e saber que há uma opção de novela como “Bom Sucesso”, que não trata o espectador como imbecil e ainda proporciona um divertimento leve e bem humorado. Além de um texto sagaz, a cereja do bolo é a inspiração que o mundo dos livros tem na história, algo que veio bem a calhar nesse momento.

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