Por José Simões

Algumas vezes me perguntam se quando um ator ou atriz beija no teatro é de verdade. A resposta é: sim e não.

O beijo e tudo mais em cena deveria ser de verdade. Mesmo quando os atores e as atrizes utilizam algum tipo de “truque” para fazer a cena. Porém, algumas vezes, os beijos não são de verdade porque não há verdade cênica. Mesmo o beijo físico sendo de verdade. Confuso? Então vamos por partes.

A verdade (na cena) é, para alguns, a base do teatro. O termo – verdade cênica – é carregado de uma multiplicidade sentidos e, graças a esta polissemia, ele sofre (e porque não) resistência e interpretações variadas no âmbito dos estudos teatrais.

Para alguns ao se pronunciar: verdade cênica o que vem à mente é o realismo ou o naturalismo. Uma cópia do mundo. Certamente não é nada disso que se trata o conceito de verdade na cena. Para Constantin Stanislavski (nascido em 1863 e autor de livros como: a preparação do ator; a criação de um papel, etc.) a verdade cênica é definida como “aquilo que não existe, mas que poderia existir” em cena.

Trata-se, portanto, de uma construção do imaginado na cena. Mesmo que este imaginado seja a construção da própria biografia. Afinal uma das premissas possíveis é que “o teatro não é cópia do mundo Ele é o mundo” (Anne Ubersfeld).

É justamente por isso que, por exemplo, um jovem pode interpretar personagens mais velhas ou até mesmo de outro sexo. Qualquer personagem é possível desde que traga consigo a verdade na cena. Assim não é o sexo ou a idade que garantirá o atributo da verdade em cena.

Por exemplo, uma personagem velha interpretada por um ator velho ou uma personagem jovem interpretada por um jovem por si só não garante a verdade na cena. A verdade é para além do que imitar ou copiar a vida vivida. Imitações e cacoetes em cena tem a sua função em determinados contextos, principalmente, se não forem meras copias do mundo real.

Noutro exemplo o Stanislavski explicita “um mentiroso, para enganar uma pessoa, não poderá deixar de acreditar na realidade do que inventou, senão o seu interlocutor perceberá a mentira; mas, simultaneamente, o mentiroso não perderá de vista a realidade da situação – a necessidade de enganar. A sua fé, nesse caso, terá característica de fé cênica”.

Um alerta. É necessário dizer que a priori ator ou a atriz não é um mentiroso. Talvez um fingidor (me apropriando de Fernando Pessoa). Um livre fingidor. Todavia, utiliza em parte da lógica do jogo da mentira e do mentiroso para criar e construir personagens e a cena. Essa é a dificuldade no processo de criação de personagens no teatro.

Nalguns espetáculos que tenho assistido na cidade há, justamente, falta dessa verdade cênica. Aqueles que dirigem ou que são responsáveis pela formação da interpretação precisam estar cada vez mais atentos a estas questões formativas. Senão teremos um tsunami de caras e bocas. O teatro pode tudo, mas o público tolera muito pouco.

Eu tenho a esperança de ver um teatro metaforicamente repleto de beijos verdadeiros.

Jose Simões é professor, encenador e pesquisador na área da Educação, do Espaço Teatral e Teatro-Educação.