“Rush – No Limite da Emoção” retrata rivalidade e momento marcante na vida de Niki Lauda

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Erick Rodrigues

Dizer que tem um rival ganhou, nos dias de hoje, um aspecto negativo. Ignorando que uma rivalidade não precisa ser desrespeitosa ou alimentar ódio, o mundo atual, envernizado pela hipocrisia, colocou esse tipo de relação no grupo daquelas que não devem ser cultivadas, pela ideia de gerar sentimentos que não precisariam ser estimulados. A morte de Niki Lauda, um dos maiores nomes da Fórmula 1, me fez lembrar de “Rush – No Limite da Emoção”, filme de 2013 que aborda outro lado desse tema e retrata um momento crucial na vida do piloto.

No longa, dirigido por Ron Howard, a rivalidade entre Lauda e James Hunt, outro campeão do esporte, é o fio condutor do roteiro, ambientado na década de 70, momento considerado glamouroso para a Fórmula 1. A história começa quando os pilotos ainda estavam em uma categoria inferior, almejando um lugar entre os grandes e alimentando o que seria uma marcante disputa pessoal e de talentos.

Dividindo o tempo de tela, “Rush” deixa claro que Niki Lauda (Daniel Brühl) e James Hunt (Chris Hemsworth) tinham personalidades diferentes. O primeiro era prático, metódico, disciplinado e ambicioso nas conquistas que pretendia ter. Já o segundo, apesar do talento e da vontade de ser um grande piloto, não se furtava de alguns excessos, como bebidas e mulheres. Também tinha um carisma capaz de arrebatar multidões, característica essa que chamava a atenção do rival, mais introspectivo e duro com as palavras.

Em determinado momento, por caminhos distintos, ambos chegaram à principal categoria do automobilismo, o que fez com que a rivalidade entre eles apenas crescesse. Testando os limites um do outro, Lauda, já um campeão, e Hunt, ainda tentando o título, chegaram ao ano de 1976, que seria definitivo para os dois.

No circuito de Nürburgring, na Alemanha, Lauda sofre um grave acidente, que o faz ficar por quase um minuto dentro de uma Ferrari em chamas, a uma temperatura de mais de 400 graus. Salvo por colegas pilotos, que se envolveram em colisões posteriores, o campeão é resgatado e vai parar no hospital em uma condição crítica. Perto da morte, o campeão austríaco chegou a receber extrema-unção, mas, apesar das queimaduras e dos danos nos pulmões, algo ainda estava inacabado.

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Enquanto via a recuperação de Lauda, Hunt acelerava pelos circuitos da Fórmula 1 e despontava como favorito ao título daquele ano, já que alcançava os pontos do rival a cada bandeira quadriculada. Mal sabia ele que cada vitória estava ajudando na recuperação impressionante do austríaco, que driblou a morte e voltou às pistas depois de pouco mais de 40 dias internado.

“Rush – No Limite da Emoção” tem a qualidade de abordar a rivalidade entre duas pessoas sem qualquer estigma social. Encarado geralmente a partir de aspectos negativos, esse tipo de relação pode servir para impulsionar e fazer crescer, como quer mostrar o filme. Lauda e Hunt foram rivais incansáveis, mas fica claro que, apesar de alguns excessos, havia respeito entre eles e desejos de atingirem o ápice, sem que isso significasse necessariamente a desgraça do outro. Era uma rivalidade nas pistas e ponto.

Além disso, o longa serve para mostrar outro momento da Fórmula 1, que, com o passar dos anos, foi ganhando uma aura artificial, que deixou o esporte menos interessante. Lauda e Hunt se destacavam em um ambiente que ainda não era dominado por assessores de imprensa, executivos e patrocinadores interessados em blindar esse universo. Sem filtro, o campeão austríaco dizia rigorosamente o que pensava, do jeito que achava que devia, e não se escondia atrás de uma figura pública de piloto. Da mesma forma, Hunt não conseguia disfarçar a impulsividade e os comportamentos considerados inadequados. Se pararmos para pensar, ambas as personalidades não têm mais espaço no automobilismo de hoje, que sofre os efeitos dos vernizes que neutralizaram os personagens desse mundo.

A morte de Niki Lauda representa, para a Fórmula 1, a perda do símbolo de uma época que não volta mais no esporte, que viveu um reconhecido momento de glamour no período em que o austríaco corria pelos circuitos do campeonato. Por isso, vale a pena assistir “Rush – No Limite da Emoção”, que mostra um lado nada hipócrita da rivalidade entre dois pilotos e, ainda, retrata um momento definitivo na vida de um campeão.

RUSH – NO LIMITE DA EMOÇÃO

COTAÇÃO: ★★★★ (ótimo)