Narrativa previsível é beneficiada por desempenho dos atores em “Green Book – O Guia”

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Erick Rodrigues

Como dar nova cara a uma história já tão conhecida do público e explorada em muitos filmes, séries e na literatura? Provavelmente, não vai haver apenas uma resposta a essa pergunta, mas uma delas, com certeza, seria: apostar em atuações marcantes, que tragam empatia e personalidade ao enredo. A força do desempenho dos atores é o que dá força a “Green Book – O Guia”, indicado a cinco estatuetas no Oscar, incluindo melhor filme, e em cartaz nos cinemas.

Inspirado em uma história real, “Green Book” começa mostrando a rotina de Tony Lip (Viggo Mortensen), que trabalha como uma espécie de segurança em uma casa noturna de Nova York. Sempre chamado para resolver os problemas corriqueiros do local, o descendente de italianos acaba usando o jeito falastrão e persuasivo para se tornar popular, o que facilita quando ele precisa procurar um emprego temporário, durante os dois meses em que a boate vai ficar fechada para reformas.

Enquanto gasta o tempo livre com apostas e comilanças, Lip recebe uma ligação para participar de uma entrevista de emprego para uma vaga de motorista. A tarefa é conduzir e cuidar do itinerário de Don Shirley (Mahershala Ali), um famoso pianista negro. Apesar de colocar certas barreiras, o ítalo-americano aceita a oferta, mesmo com o fato de ter que se afastar da família por dois meses para acompanhar o músico em uma turnê pelo sul do país.

A série de shows do pianista, no entanto, é encarada com certa reserva pelos envolvidos. No início da década de 60, o sul dos Estados Unidos era uma conhecida área segregacionista, o que poderia criar conflitos sobre a presença de Don Shirley. O racismo contra o músico já começava durante a viagem, por conta de palavras e atitudes de Lip, que, quase sempre, sequer percebia que estava discriminando o contratante.

Passando por várias cidades e estados, Don Shirley encontra muitos preconceituosos pelo caminho, que o impedem de usar o mesmo banheiro dos convidados brancos, não permitem que ele frequente restaurantes e até o abordem com suspeitas infundadas. Mesmo com tantos problemas, o pianista consegue estabelecer uma relação de amizade com o motorista, que, aos poucos, vai deixando para trás qualquer racismo.

Se você parar para pensar por um momento, não é difícil nomear filmes que tratam de amizades aparentemente improváveis. Nem mesmo a temática racial inserida na história é algo inédito, já tendo sido retratada, por exemplo, no premiado “Conduzindo Miss Daisy”, que apresenta uma versão invertida da trama de “Green Book”. O que diferencia o longa, no entanto, é o desempenho irretocável dos atores, que conseguem conquistar rapidamente o espectador.

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A grande atuação do filme é a de Mahershala Ali, vencedor do Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante e favorito ao Oscar pelo personagem. Vivendo Don Shirley, o ator consegue apresentar as camadas do pianista de uma forma muito precisa e bonita. Saindo de uma aparente superficialidade, Ali traz à tona todos os conflitos internos do músico relacionados a preconceito e solidão. Da mesma forma, Viggo Mortensen faz o espectador criar empatia por Tony Lip, ainda que a primeira impressão seja a de ver um tipo estereotipado. A química entre os dois funciona muito bem e, de certa forma, conduz o longa.

É nítido, no entanto, que, se não fosse pelos atores, “Green Book – O Guia” não estaria sendo tão festejado na temporada de premiações e seria apenas mais um filme sobre amizade. Incomoda que o roteiro seja tão previsível e não aproveite o talento de Mortensen e Ali para ser mais sofisticado e explorar pontos mais ricos do encontro entre os personagens. Apesar de conquistado pelas atuações, o espectador consegue, sem nenhum esforço, prever acontecimentos da narrativa a partir de sinais e sequências nada sutis do roteiro, o que torna a experiência de ver o filme, ainda que agradável, menos impactante.

Festejado em premiações e festivais, “Green Book – O Guia” conseguiu ganhar repercussão, também, pelas polêmicas que coleciona na vida real. O filme já foi questionado pela família de Don Shirley, que criticou a versão sobre a amizade entre o músico e Tony Lip. Além disso, o longa foi afetado por conta de uma declaração do ator Viggo Mortensen, que teria usado um termo racista, e um comentário, no Twitter, do roteirista Nick Vallelonga, filho do motorista retratado na história, sobre o ataque às Torres Gêmeas. Como se não bastasse, veio à tona que o diretor Peter Farrelly tinha um comportamento inapropriado nos bastidores de filmes anteriores, o que o fez pedir desculpas.

Polêmicas à parte, “Green Book – O Guia” emplacou cinco indicações ao Oscar e chega forte à disputa de melhor filme, especialmente pelo prêmio conquistado no Sindicato dos Produtores, um dos principais termômetros para o resultado da votação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Previsível e sem conseguir agregar elementos diferentes a uma história já muito conhecida, “Green Book – O Guia” se beneficia do talento dos protagonistas, que emprestam empatia, profundidade e personalidade ao filme. É essa característica que garante que a experiência de ver o longa não seja facilmente esquecida depois.

GREEN BOOK – O GUIA

COTAÇÃO: ★★★ (bom)