Dez melhores filmes que não ganharam o Oscar

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Erick Rodrigues

Pode até parecer estranho, mas, apesar de ter uma categoria de melhor filme, nem sempre o Oscar premia, de fato, os melhores longas de cada ano. Isso acontece por uma série de fatores, como as campanhas que os estúdios fazem pelas obras cinematográficas, a data de lançamento das produções, a relevância das temáticas e por aí vai.

É óbvio que pode ser somado a isso o gosto particular de cada um dos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood que votam na categoria, mas o fato é que alguns prêmios simplesmente acabam indo parar com filmes que não carregam as mesmas qualidades de outras obras que concorrem com eles. Em alguns casos, a distância entre os longas que disputam o principal troféu da cerimônia pode ser gritante e, em outros, boas histórias acabam premiadas, ainda que não sejam comparáveis aos reconhecidamente melhores.

Em mais de 90 anos de premiação, o Oscar já produziu imensas injustiças e, também, reconheceu como melhores alguns filmes medianos, que não provocavam os mesmos efeitos que outros. Antes de sabermos se, em 2019, haverá um caso desses, vamos relembrar dez longas que, mesmo com mais qualidades que outros, perderam votos para obras nem tão boas ou assustadoramente piores.

MELHORES FILMES QUE NÃO RECEBERAM O OSCAR

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Três Anúncios Para um Crime (perdeu para A Forma da Água) – 2018

Quando um filme começa a temporada de premiações sendo apontado como favorito ao Oscar, dificilmente isso se reverte. “A Forma da Água”, do diretor Guillermo Del Toro, nem de longe pode ser considerado uma obra ruim, mas é fato que não era a melhor disputando a principal categoria do ano passado. Esse posto pertencia a “Três Anúncios Para um Crime”, longa com um discurso poderoso e que ainda dialoga muito bem com os tempos em que estamos vivendo. Na trama, Mildred Hayes (Frances McDormand, sempre impecável) denuncia a inércia da polícia de sua cidade ao investigar a morte da filha dela. Com um roteiro poderoso e personagens bem construídos, o filme  não saiu da premiação de mãos abanando, mas perdeu o troféu principal da noite para a fantasia cheia de simbologias de Del Toro, que, apesar de ser bom, não é tão marcante quando o concorrente derrotado.

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O Resgate do Soldado Ryan (perdeu para Shakespeare Apaixonado) – 1999

Essa é uma das injustiças mais gritantes da história do Oscar. “Shakespeare Apaixonado”, o romance sem sal do diretor John Madden, teve um estúdio eficiente para fazer propaganda e conquistou a maioria dos votantes da Academia. Assim, além de outros seis prêmios naquela noite de 1999, incluindo o de melhor atriz para a igualmente sem graça Gwyneth Paltrow, o longa foi escolhido como o melhor, superando outros bons concorrentes. A derrota foi maior para Steven Spielberg e seu “O Resgate do Soldado Ryan”, claramente a obra que tinha mais apelo para ganhar o troféu naquele ano. Apesar de não gostar muito da filmografia do diretor, é preciso reconhecer que a história estrelada por Tom Hanks é uma das mais bem construídas da carreira dele. A produção caprichada, a câmera imersiva e as grandes sequências de guerra não conquistaram, no entanto, o número de votos suficientes para desbancar “Shakespeare Apaixonado”.

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Um Corpo Que Cai (sequer foi indicado na categoria vencida por Gigi) – 1959

A obra-prima do diretor Alfred Hitchcock sempre está nas listas de melhores filmes de todos os tempos, mas, em 1959, nem estava entre os indicados na principal categoria do Oscar, algo que não tem justificativa. O cineasta, famoso como mestre do suspense, criou, em “O Corpo Que Cai”, uma instigante trama sobre um detetive aposentado que aceita seguir uma misteriosa mulher e, depois de pensar que ela é louca, acaba descobrindo que algo mais estranho ainda poderia acontecer. Nem mesmo os desempenhos de Kim Novak e James Stewart seduziram os votantes da Academia, que deixaram passar a oportunidade de premiar esse grande clássico. Quem levou o troféu para casa foi “Gigi”, protagonizado pela atriz Leslie Caron, que não tem a mesma força do longa de Hitchcock.

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Mad Max – Estrada da Fúria (perdeu para Spotlight) – 2016

“Spotlight: Segredos Revelados”, filme sobre a publicação de uma série de reportagens sobre os abusos sexuais cometidos por padres de Chicago, chegou a ser comparado, na época do lançamento, com o clássico “Todos os Homens do Presidente”, que mostrou o trabalho de jornalistas do jornal The Washington Post para revelar o escândalo envolvendo o presidente norte-americano Richard Nixon. Não é para tanto, mas o fato é que o longa saiu do Oscar 2016 com o prêmio de melhor filme, superando a verdadeira grande produção daquele período. “Mad Max – Estrada da Fúria”, além de retomar com inteligência a franquia do diretor George Miller, trouxe uma história de ação de primeira e um subtexto importante sobre o futuro do planeta e a valorização de um recurso que, por enquanto, não nos falta: a água. Bem amarrado e com um estética refinada, “Mad Max – Estrada da Fúria” é imperdível, enquanto que “Spotlight” é bem mediano.

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Whiplash (perdeu para Birdman) – 2015

“Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” levou o Oscar de melhor filme em 2015 e, confesso, não foi um resultado que tenha me desagradado. Gosto muito do trabalho do diretor Alejandro González Iñarritu com os planos-sequências e a construção dos personagens, além do ótimo desempenho do elenco. Mas, ainda assim, é preciso reconhecer que “Birdman” não era melhor do que o impactante “Whiplash”, dirigido por Damien Chazelle. A jornada de sofrimento e dedicação do jovem Andrew (Miles Teller), que sonhava em ser o melhor baterista do mundo da música e penou nas mãos do professor Terence Fletcher (J.K. Simmons), não teve votos suficientes para ganhar o principal prêmio da noite, ainda que merecesse. “Whiplash” não precisa de um Oscar para ser reconhecido como um dos melhores longas lançados nos últimos anos.

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2001: Uma Odisseia no Espaço (sequer foi indicado na categoria vencida por Oliver!) – 1969

A versão musical de Carol Reed para a história do garoto Oliver Twist talvez não tivesse tido chance de ganhar o Oscar de melhor filme, em 1969, se “2001 – Uma Odisseia no Espaço” fosse um dos concorrentes ao prêmio. Só que o clássico de ficção científica de Stanley Kubrick ficou de fora da principal categoria, deixando o caminho livre para “Oliver!”. Mais uma vez, o tempo fez justiça a essa obra-prima, que hipnotiza o espectador com uma instigante viagem no tempo e no espaço, destacando a evolução e o ciclo da vida. As cores, os efeitos especiais e o roteiro, que provoca muito mais dúvidas do que explicações, podem até não fazer sentido logo de cara, mas vale a pena assistir a “2001 – Uma Odisseia no Espaço” mais de uma vez, ainda que o filme não possa dizer que ganhou um Oscar que o classifique como o melhor daquele ano.

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Fargo (perdeu para O Paciente Inglês) – 1997

Em 1997, “O Paciente Inglês” ganhou nove Oscars, incluindo o de melhor filme. Não é o caso de poder ser considerada uma obra ruim, mas, também, não se compara ao roteiro ousado, absurdamente instigante e repleto de personagens inusitados de “Fargo”, até hoje, a  obra-prima dos irmãos cineastas Joel e Ethan Coen. Como uma panela de pressão, prestes a estourar, a história mostra o desenrolar de uma série de erros em um plano de sequestro envolvendo um vendedor covarde, bandidos atrapalhados e uma policial aparentemente frágil. Com diálogos inspirados e desfechos surpreendentes, “Fargo” perdeu o Oscar, mas, assim como em outros casos, não fez nenhuma falta.

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Django Livre (perdeu para Argo) – 2013

O diretor Quentin Tarantino já mereceu o Oscar de melhor filme diversas vezes, mas, em 2013, com “Django Livre”, ele merecia muito mais do que “Argo”, o drama comandado por Ben Affleck. O vencedor do prêmio não é ruim e até serviu para mostrar que Affleck é melhor cineasta do que ator, só que é uma obra bem mais apagada do que a de Tarantino. Sempre privilegiando uma boa trama e os diálogos, o cineasta construiu um drama marcante que reflete a escravidão, no sul dos Estados Unidos, com toques de cinismo e violência. Aliás, não foi só o prêmio de melhor filme que “Django Livre” perdeu, já que tinha potencial para sair premiado com os troféus de melhor direção e ator. “Argo” que fique com sua estatueta, pois “Django Livre” tem muito mais qualidades.

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Sociedade dos Poetas Mortos (perdeu para Conduzindo Miss Daisy) – 1990

O prêmio de melhor filme de 1990 é considerado controverso, com muitos concorrentes tidos como mais aptos a receber o troféu do que “Conduzindo Miss Daisy”, o vencedor anunciado na ocasião. Apesar de tratar de um tema relevante, o preconceito, o longa sempre foi acusado de discutir a questão com simplicidade e sob uma ótica otimista demais. Mesmo assim, não dá para dizer que “Conduzindo Miss Daisy” é um filme ruim, mas a estatueta poderia ter ido para “Nascido em 4 de Julho”, “Meu Pé Esquerdo” e, o meu favorito, “Sociedade dos Poetas Mortos”. A produção, dirigida por Peter Weir, traz Robin Williams no papel de um professor que muda a vida de um grupo de alunos, que aprendem a refletir sobre a vida. Um belo filme, com cenas e diálogos marcantes, que a Academia deixou de premiar.

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O Segredo de Brokeback Mountain (perdeu para Crash – No Limite) – 2006

Na época em que foi lançado, “O Segredo de Brokeback Mountain”, do diretor Ang Lee, ganhou muita repercussão e chegou ao Oscar apontado como um dos favoritos ao prêmio. Havia dúvidas, no entanto, se a Academia premiaria uma história de amor entre dois caubóis, no verão de 1963, no Wyoming. Os mais descrentes acabaram tendo razão: em 2006, “Crash – No Limite” foi anunciado como o melhor filme. O cineasta Paul Haggis até tinha uma boa proposta com a obra, dando a ideia de que as vidas humanas estão conectadas e acontecimentos específicos podem afetar os outros, mas o resultado não foi tão profundo assim. Mais intenso e até humano, “O Segredo de Brokeback Mountain” mostrou-se mais relevante, enquanto “Crash” é pouco lembrado.