Crítica sobre mercado da arte perde força com indefinição de gênero de “Velvet Buzzsaw”

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Erick Rodrigues

Logo na estreia como diretor no ótimo “O Abutre”, Dan Gilroy, propôs ao espectador uma discussão sobre a ética no jornalismo e como a falta de compromisso e respeito à profissão podem corromper a função primordial do trabalho, especialmente quando há ganância e oportunismo envolvidos. Depois dessa empreitada, o cineasta, que também atua como roteirista, usa um discurso crítico semelhante para analisar o mercado da arte em “Velvet Buzzsaw”, longa original da Netflix que, apesar da intenção, não tem o mesmo resultado da primeira obra de Gilroy.

Na trama, Morf Vandewalt (Jake Gyllenhaal) é um conceituado crítico de arte, capaz de erguer ou desmoralizar pintores e exposições inteiras com apenas alguns comentários. Por conta disso, proprietários de galerias sempre procuram uma forma de agradá-lo e envolvê-lo em projetos e novidades do mercado, oferecendo a ele exclusividade sobre a cobertura de mostras e obras de artistas novatos. Uma dessas parceiras é Nina (Rene Russo), que possui uma famosa galeria em Los Angeles e fecha, todos os dias, vendas de milhares de dólares dos quadros expostos no espaço.

Uma das associadas da galeria é Josephina (Zawe Ashton), que está em busca de uma oportunidade para se destacar na área e enxerga isso nas obras de um vizinho. O pintor, misterioso e solitário, morre e deixa a orientação de que suas obras sejam descartadas e, de modo algum, entrem no mercado das artes. Josephina, no entanto, se apossa das pinturas, que são colocadas em exposição na galeria de Nina.

As obras do misterioso pintor logo conquistam os amantes das artes e exercem até certo fascínio inexplicável sobre as pessoas, virando objeto de desejo de colecionadores, artistas e representantes da alta sociedade. Nem todos, porém, conseguem desfrutar dos trabalhos do artista, que começam a ganhar vida a partir de uma força sobrenatural e perseguir todos aqueles que, de alguma forma, desrespeitaram a vontade do pintor e transformaram a arte dele em comércio.

Assim como em “O Abutre” e no estranho “Roman J. Israel, Esq.”, Gilroy volta a criticar o desvirtuamento de uma carreira. Em “Velvet Buzzsaw”, o foco está no universo da artes, especialmente na superficialidade e banalização do trabalho dos artistas. O diretor usa os eventos sobrenaturais envolvendo as obras do pintor misterioso para mostrar que a finalidade da arte ou, até mesmo, os sentimentos que ela pode despertar ficam em segundo plano diante da exploração comercial desses trabalhos.

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Além de mostrar que o valor artístico de uma obra pode ser ofuscado por ambições de mercado, o longa também usa os personagens de Jake Gyllenhaal e Rene Russo para expor como interesses pessoais podem direcionar as atenções do mundo das artes, reduzindo o valor de um artista ao preço de suas obras. Com o personagem de John Malkovich, um pintor consagrado em crise criativa, a trama procura discutir os conflitos entre o trabalho artístico e a produção em massa, que pode aprisionar o talento em demandas e restrições de comércio.

Tendo uma mensagem bastante clara, “Velvet Buzzsaw” não consegue fazer com que esse discurso chegue com impacto ao espectador. Isso se dá pela indefinição do longa em abraçar um gênero e seguir um caminho específico. Com momentos de comédia de humor ácido e terror psicológico, a narrativa acaba misturando essas propostas em ocasiões errados e enfraquece as duas abordagens. Em algumas sequências, por exemplo, o terror causado pelas ações sobrenaturais das obras de arte não apresenta o efeito de tensão desejado justamente pelo toque cômico de diálogos e acontecimentos. O resultado dessa falta de equilíbrio é uma reação neutra de quem assiste, onde nem o humor e nem o terror ficam marcados.

Também não ajuda o filme a criação de personagens que abusam de clichês já muito explorados em outras histórias sobre o universo das artes. O crítico impiedoso, a dona de galeria ambiciosa, o artista em crise, a assistente subestimada, todos são abordados de forma superficial, sem que o espectador seja envolvido nos dilemas deles. Preso nesses estereótipos, o roteiro perde a chance de dar profundidade a esses tipos, que acabam sendo mais beneficiados pelo talento dos atores que os interpretam, como Gyllenhaal, Rene Russo e Toni Collette, do que pelo material a ser explorado.

Apesar de seguir com as mesmas intenções vistas em “O Abutre”, Gilroy, nem de longe, consegue fazer o espectador se envolver com a crítica sobre o mercado de obras de arte, que deixa de lado o valor artístico para privilegiar dinheiro e status social. A indefinição sobre um gênero específico para marcar o tom da narrativa faz a história ser apenas mais uma, desperdiçando um potencial crítico interessante.

VELVET BUZZSAW

COTAÇÃO: ★★ (regular)

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