Como “Corpo Fechado” e “Fragmentado” construíram conclusão de trilogia em “Vidro”

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Por Erick Rodrigues

Muito antes de as reuniões de heróis da Marvel e da DC Comics virarem verdadeiros eventos cinematográficos, aguardados por milhões de espectadores e responsáveis por recordes de bilheteria, um universo compartilhado de heróis e vilões já se desenhava, sem que as pessoas sequer se dessem conta. Depois da estreia de “Corpo Fechado”, no ano 2000, que parecia ser um filme independente, e da inesperada ligação com “Fragmentado”, lançado 16 anos depois, a trilogia do diretor M. Night Shyamalan ganha, nesta semana, uma conclusão com a chegada de “Vidro” às salas de cinema. Mas, antes que esses personagens se encontrem, vamos relembrar o caminho construído até aqui.

A primeira parte do que viria a se revelar um universo compartilhado estreou há 19 anos e, ainda que elogiado, não é um filme dos mais lembrados. “Corpo Fechado” veio na esteira do sucesso que Shyamalan teve com “O Sexto Sentido” e reeditou a parceria do diretor com Bruce Willis, que deixou os mistérios do longa anterior de lado para dar vida a um homem que se dizia comum, mas tinha algo de extraordinário.

No longa, David Dunn (Willis) vive uma crise no casamento e, por isso, procura uma oportunidade de trabalho em Nova York. Voltando de uma das viagens até a Big Apple, o trem em que o protagonista está sofre um grave acidente, o que resulta na morte de todos os passageiros, ou melhor, quase todos. Dunn sai ileso da tragédia, surpreendendo médicos e ganhando a atenção da mídia, o que, de alguma forma, acaba mexendo com ele e o faz questionar essa “sorte”.

Um encontro, no entanto, permite que o protagonista, que trabalha como segurança, comece a entender, aos poucos, todos os acontecimentos. Elijah Price (Samuel L. Jackson), um homem que vive uma condição de vida raríssima, alerta Dunn sobre a possibilidade de o segurança ser, na verdade, um super-herói e, por isso, praticamente indestrutível. O personagem de Willis representa o oposto a Elijah, que sofre de um problema que o faz ter ossos extremamente sensíveis e facilmente quebráveis.

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“Corpo Fechado” constrói a trajetória de um herói, mas não do jeito que estamos habituados a ver. No longa, Shyamalan cria um roteiro que parte de uma base realista para, somente perto do fim, mostrar que estava retratando algo extraordinário. Para isso, sem usar grandes efeitos especiais, o diretor e roteirista aposta na humanidade do protagonista, que sofre com problemas domésticos e não percebe que falta a ele um propósito, um brilho no olhar.

Fazendo jus à fama do cineasta, “Corpo Fechado” não poderia deixar de ter uma virada, que vai sendo construída ao longo do filme, mas que, de fato, só se revela nos momentos finais, quando fica claro que, além da construção de um herói, o longa também desenhava a trajetória de um vilão à altura.

Por parecer independente, quase ninguém apostava que “Corpo Fechado” teria algum desdobramento. Apesar de não poder ser considerado uma continuação, “Fragmentado”, que chegou aos cinemas 16 anos depois da história de David Dunn, em apenas uma cena, mostrou que estava completamente inserido em um universo desenhado na cabeça de Shyamalan.

Na segunda parte da trilogia, a história é protagonizada por James McAvoy, que vive vários personagens em um só. No documento de identidade, ele é Kevin, mas sofre de transtornos de personalidade, o que permite a ele assumir outras 22 identidades. Processos químicos no organismo dele fazem com que esses tipos se alternem e assumam o controle do corpo em períodos distintos ou, até mesmo, interagindo uns com os outros.

Para controlar pessoas tão diferentes que ocupam aquela mente, o protagonista conta com a ajuda de uma terapeuta, mas nem ela contava que havia um plano em curso, entre algumas personalidades, para que Kevin deixasse aflorar uma criatura fora do comum. Para fazê-la surgir, essas identidades sequestram três adolescentes, que são mantidas em cativeiro para servirem de alimento para a Fera, um ser com habilidades descomunais.

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Em “Fragmentado”, boa parte da qualidade do filme depende da entrega de McAvoy, que domina a cena e consegue fazer com que o espectador acredite em cada uma das personalidades reveladas, algumas vezes, sem a necessidade de recursos de figurino. O entendimento que o ator parece ter da obra e daqueles personagens faz toda a diferença no envolvimento com a história.

É preciso reconhecer, também, que Shyamalan sabe perfeitamente o que está fazendo com “Fragmentado”, entregando ao espectador um suspense dos mais interessantes, sustentado por um trama que se revela a passos lentos e com uma direção bastante precisa, que privilegia planos mais fechados e uma edição que alimenta a tensão da narrativa. Mais uma vez, o cineasta parte de uma base realista para, depois, deixar claro, seus verdadeiros propósitos.

A trilogia do diretor só se revela, de fato, no último momento de “Fragmentado”, quando Shyamalan escancara as intenções de apresentar um universo compartilhado, que deve ser concluído nesta quinta-feira (17), com a estreia de “Vidro”, que vai promover o encontro entre os personagens, mas focando em Elijah Price, o coadjuvante de “Corpo Fechado”.

O longa vai ser ambientado, na maior parte do tempo, em uma clínica psiquiátrica, onde os personagens vão se encontrar para a conclusão da história. No trailer, fica claro que Elijah, também conhecido como Senhor Vidro, por conta da sensibilidade óssea, tem planos para a Fera que domina uma das personalidades de Kevin. Isso vai fazer com que ele encontre com Dunn, que foi seu amigo no passado e, agora, vai atuar para tentar impedir que os vilões levem a melhor.

Não é errado dizer que a trilogia formada por “Corpo Fechado”, “Fragmentado” e “Vidro” é inesperada, algo que os espectadores sequer imaginaram que gostariam de ver. Às vésperas da estreia da terceira parte, no entanto, quando tudo já parece desenhado, prevalece o entendimento do caminho construído por Shyamalan e a curiosidade de ver como esse universo compartilhado vai se resolver. Sem precisar fazer muito esforço de raciocínio, com certeza, alguma surpresa vai haver.