“Black Mirror: Bandersnatch” proporciona experiência válida, porém supervalorizada

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Por Erick Rodrigues

Já imaginou se o espectador pudesse escolher, nos momentos finais de “Vingadores: Guerra Infinita”, se o vilão Thanos teria ou não sucesso em reunir as Joias do Infinito para concretizar suas ambições sobre o universo? Ou, então, se Jack afundaria ou não no mar congelante após o naufrágio do Titanic, no filme de mesmo nome do diretor James Cameron. Enfim, e se o público fosse responsável por definir acontecimentos banais e fundamentais para a história de um longa-metragem? O que aconteceria? Seria a mesma coisa? “Black Mirror: Bandersnatch”, lançado na plataforma de streaming Netflix, testa essa experiência e mostra que, na prática, ela ainda não contribui muito para esse entretenimento.

Derivado da ficção científica “Black Mirror”, série que já teve quatro temporadas lançadas pelo serviço, “Bandersnatch” foi concebido como uma experiência cinematográfica interativa. Com um fio-condutor pré-definido, o longa permite que o espectador escolha o caminho que a trama vai tomar, o que, é claro, exigiu planejamento e gravações de várias opções e desfechos narrativos.

O longa acompanha o jovem Stefan Butler (Fionn Whitehead), que, em plena década de 80, trabalha no desenvolvimento de um jogo baseado no livro “Bandersnatch”, que já oferecia ao leitor a interação de escolher o caminho que os personagens seguiriam, proporcionando leituras distintas a quem se interessasse pela publicação. Quando consegue vender a ideia para uma grande empresa do setor, ele mergulha em uma rotina angustiante para criar e entregar todos os finais possíveis para o jogo.

É difícil fazer qualquer resumo que fuja do básico sobre “Black Mirror: Bandersnatch”, uma vez que cada escolha, por mais banal que possa parecer, pode conduzir a história por um caminho diferente. O espectador é convidado a escolher a música que o protagonista escuta, o cereal que ele come no café da manhã e se ele aceita a proposta de trabalhar com uma equipe de desenvolvedores de jogos ou mergulha em um processo solitário e angustiante.

É claro que essa interação não fica restrita a escolhas triviais e também envolve decisões mais sérias, como o acesso a um segredo sobre o passado traumático de Stefan e, até mesmo, se o protagonista comete um ato extremo de violência. Cada opção dada pelo filme conduz o espectador a um desfecho da história, que pode acabar precocemente ou continuar por mais tempo.

Escrito por Charlie Brooker, o criador da série que deu origem ao filme, e dirigido por David Slade, “Black Mirror: Bandersnatch” proporciona uma experiência válida e que dá um passo além do que já foi explorado em programas de TV e realities shows.

É inegável que qualquer proposta de inovar e experimentar novas formas de entretenimento pode e deve chegar ao público, ainda que, como acontece no longa, a interatividade vendida tenha limites. Quando uma sucessão de escolhas feitas leva o espectador a um caminho muito alternativo, por exemplo, a história permite que ele repense algumas opções até ser colocado novamente na linha da narrativa.

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Reconhecendo esse valor, é preciso dizer que “Black Mirror: Bandersnatch” não passa disso. Apresentando várias opções de acontecimentos e desfechos para a trama central do protagonista, do ponto de vista dramatúrgico, o filme só revela recortes de possíveis histórias, mas o espectador acaba não vendo nenhuma delas concretamente. É como se alguém assistisse a cenas deletadas nos extras de um DVD, descoladas do ritmo contínuo da narrativa e que, inclusive, afastam da imersão que esse tipo de entretenimento pode proporcionar.

O efeito prático que o longa causa é muito mais racional do que precisa ser o ato de assistir a um filme. Ainda que durante a exibição de uma obra cinematográfica o público analise e raciocine sobre tudo o que está sendo visto, o fato de o espectador ficar preso à obrigação de escolher os caminhos do protagonista distancia o mesmo de uma conexão maior com a história, algo que é muito mais emocional.

O filme interativo de “Black Mirror”ainda me trouxe outra reflexão: será que o espectador deve decidir o que ele vai ver dentro de uma obra? Será que ele tem plena consciência do que gostaria de assistir? Tenho as minhas dúvidas! Primeiro, pelo fato de o público não participar, junto com os criadores, da análise sobre o todo da obra e, por isso, nem sempre pensar na coerência da trajetória de uma história ou personagem.

Depois, é preciso refletir sobre a necessidade de o espectador ter as suas vontades refletidas na tela. Em um mundo onde as pessoas já submetem as interações de amizades e leituras a códigos de rede sociais, que filtram afinidades e opiniões em um universo particular, será que é bom para nós vermos apenas o que queremos? Se fizermos isso, podemos nunca ter contato com um final impensado, um diálogo inspirado ou, até mesmo, com frustrações definitivas, pois sempre vamos ter a oportunidade de refazer o filme a nosso modo.

“Black Mirror: Bandersnatch” é uma experiência cinematográfica válida, que explora uma evolução de entretenimento, mas, do meu ponto de vista, também é muito supervalorizada. Com muitas opções narrativas e a possibilidade de repensar uma decisão tomada, o espectador fica mais distante do envolvimento emocional com a história e ainda perde a chance de ser desafiado, contestado ou surpreendido por um olhar que não seja o seu.

BLACK MIRROR: BANDERSNATCH

COTAÇÃO: regular