Beleza estética e ritmo contemplativo realçam rotina simples dos personagens de “Roma”

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Por Erick Rodrigues

Por retratar, com mais frequência, acontecimentos incomuns, exemplos de superação e tipos que se destacam na multidão, o cinema pode dar a falsa impressão de que o valor de uma vida se mede apenas por esses episódios e que rotinas mais triviais não podem se transformar em grandes histórias que valham a pena serem contadas. “Roma”, o mais recente e elogiado filme do diretor Alfonso Cuarón, prova que a beleza da vida pode estar no corriqueiro, no que acontece todos os dias por aí. Somado a uma estética refinada, esse olhar resultou em uma obra cinematográfica impecável.

Vencedor do Festival de Veneza e muito bem cotado para a temporada de premiações, “Roma” é o trabalho mais autoral de Cuarón, que usa aspectos pessoais da infância no México como inspiração para a história. O foco do longa é a empregada Cleo (Yalitza Aparicio), que acumula as funções de empregada e babá na casa de uma família de classe média alta. Distante do povoado onde nasceu, a funcionária se dedica quase que em tempo integral a varrer, limpar, lavar, buscar as crianças na escola e não deixar que o cachorro fuja.

Morando em um quartinho na casa dos patrões, Cleo tem pouco tempo de lazer e, quando encontra algum, decide passá-lo com Fermín (Jorge Antonio Guerrero), primo do namorado de uma amiga, com quem tem um relacionamento. Os encontros entre eles resultam em uma gravidez inesperada, que faz com que o parceiro a abandone sozinha para lidar com essa situação.

Enquanto convive com os próprios problemas, Cleo ainda lida com a tensão provocada por uma crise familiar dos patrões. Antonio (Fernando Grediaga) comunica a esposa Sofía (Marina de Tavira) e aos quatro filhos que vai fazer uma viagem de trabalho e passar um tempo fora de casa. Aos poucos, fica claro que, na verdade, ele pretende não voltar, o que gera muitos momentos de sofrimento para a esposa, que se alterna entre estados de euforia e descontrole emocional.

Com a ajuda de Cleo, que, muitas vezes, assume um papel fundamental nos cuidados da família, as crianças são preservadas da crise entre os pais. Além dos problemas alheios, a empregada ainda sofre calada com os dilemas relacionados ao abandono do namorado e ao filho que está a caminho. Tudo isso acontece no início da década de 70, período em que o México passou por diversas transformações políticas e sociais e que serve de pano de fundo.

Com ótimos serviços prestados ao cinema, como os filmes “E Sua Mãe Também”, “Filhos da Esperança” e “Gravidade”, Cuarón demonstra, logo nos minutos iniciais de “Roma”, que pretende apresentar um deleite visual ao espectador. Para isso, também assume a fotografia do longa e escolhe retratar os personagens com um olhar preto e branco belíssimo e muito bem equilibrado. A câmera do diretor passeia pela rotina de Cleo de uma forma contemplativa, com planos muito abertos, mas, ao mesmo tempo, muito intimista, interessada em detalhes. Por conta disso, o cineasta impõe um ritmo moroso, que exige paciência do espectador, que pode se decepcionar se ficar esperando uma grande reviravolta do roteiro.

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A estética sofisticada e o ritmo delicado de Cuarón casam perfeitamente com o roteiro, outra das funções que o cineasta acumula na produção. Com um interesse muito particular por aqueles seres humanos, ele foca toda a força narrativa do longa na rotina daqueles personagens, no modo como as relações os afetam e, muitas vezes, no que não é dito ou está evidente em um primeiro momento. Acontecimentos comuns da rotina diária de Cleo, Sofia e das crianças ganham dimensões grandiosas e conseguem capturar a atenção do espectador, que rapidamente se vê imerso naquelas vidas e passa a procurar entender gestos, angústias, afinidades, entre outros inúmeros sentimentos que surgem.

Não se deixe enganar, no entanto, pela rotina ordinária desses personagens. Em muitos momentos, fica claro que Cuarón está querendo retratar e discutir muitos temas pertinentes, como política e diferenças sociais. Um dos exemplos disso é a relação de Cleo com a família para a qual trabalha. Assumindo, muitas vezes, um papel estrutural e afetivo importante para aquele núcleo, a empregada não escapa de situações e discursos criados para fazê-la lembrar do lugar ao qual ela “pertence”, mesmo que isso se confunda na cabeça das crianças e dos adultos.

O elenco é parte fundamental para evidenciar a beleza de “Roma”, a começar pela revelação Yalitza Aparicio, que tem um trabalho absurdamente primoroso. Além de mostrar propriedade para dizer aquele texto, a atriz usa o olhar e o corpo como instrumentos para extrapolar as palavras e revelar as muitas camadas da protagonista, formadas por retração, tristeza, subserviência e afeto. Vale destacar, ainda, os desempenhos das crianças e de Marina de Tavira, que encara um papel mais sujeito a caricaturas e dribla isso com uma complexidade interessante.

Feito para o serviço de streaming Netflix, o filme ainda está sendo objeto de outra discussão, que vai além das qualidades artísticas. O longa alimenta o debate sobre o crescimento de conteúdos feitos exclusivamente para essas plataformas e em como isso pode afetar a exibição de produções nos cinemas. As regras de credenciamento de trabalhos como esse em premiações de destaque, como o Oscar, também estão no centro desses questionamentos.

Não é exagero dizer que “Roma” é um dos grandes filmes de 2018 e uma aula de cinema de Alfonso Cuarón, que usa a beleza de uma estética sofisticada para destacar uma rotina simples, mas cheia de afeto, conflitos, decepções, alegrias e todos os outros sentimentos que preenchem uma vida. É preciso dizer que o ritmo intencional mais lento pode espantar parte do público, mas vale a pena ter um pouco de paciência para o olhar contemplativo do diretor e aceitar o convite para mergulhar no trivial, muito subestimado por alguns.

ROMA

COTAÇÃO: excelente