“Absorvendo o Tabu” revela comunidade afetada por ignorância e cultura patriarcal

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Erick Rodrigues

A falta de informação é responsável por criar abismos imensos e impedir que uma sociedade evolua e se liberte de preconceitos e tabus. Só essa ausência de conhecimento já é capaz de gerar um aprisionamento do ser humano, agora, imagine se essa situação atingir especificamente mulheres de uma comunidade rural da Índia, oprimidas por uma visão patriarcal que ainda coloca o sexo feminino em uma posição inferior ao homem.

Vencedor do Oscar de melhor documentário em curta-metragem, “Absorvendo o Tabu” mostra que um assunto, que pode ser considerado banal para muitos, ainda é tratado com preconceito, ignorância e até machismo em uma área bem distante dos grandes centros urbanos e influenciada por tradições que não levam em consideração as necessidades e direitos das mulheres.

Nessa área rural, um dos grandes tabus que ainda persiste é o da menstruação. A falta de informação faz com que muitos homens da região acreditem que o período menstrual é uma “doença” que causa sangramentos nas mulheres. O desconhecimento, no entanto, não fica restrito ao sexo masculino. Uma das entrevistadas pelo documentário, por exemplo, mostrou desconhecer a explicação biológica para a menstruação, disse que “só Deus sabe” o motivo para isso acontecer e justificou o ato como uma forma de liberar “sangue ruim” do corpo.

Também há muita influência das regras do patriarcado sobre o ato de menstruar. Nesse período, as mulheres não podem entrar em templos, por serem consideradas impuras. Irmãos e parentes de algumas indianas usam esse fato como forma de humilhação, expondo, por exemplo, as roupas sujas de sangue delas no meio da rua. Essa questão também tem a ver com o principal problema abordado no curta: apenas 10% da população feminina da Índia usa absorventes.

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“Absorvendo o Tabu” discute como todos esses fatores afetam a saúde das mulheres. Por ser considerada um tabu, a menstruação não é um tema debatido entre as famílias, o que faz com que as mulheres não tenham acesso ao absorvente. A maioria usa qualquer tipo de pano, nem sempre higiênicos, para conter os sangramentos. Um dos relatos mais impressionantes do documentário é o de uma mulher que precisou abandonar os estudos por menstruar, uma vez que não usava absorvente e sofria com o assédio dos colegas por carregar a marca do período menstrual nas roupas.

Ao mesmo tempo em que revela os atrasos produzidos pela falta de informação e pelo machismo que ainda predomina na sociedade, o curta também mostra que isso pode ser revertido. Depois que a comunidade recebe uma máquina de fabricação de absorventes, algumas mulheres começam a produzir esses itens e vender na região. Com isso, mesmo esbarrando em vergonha e resistência, as indianas conseguem, ainda que lentamente, se libertar do tabu e conquistar autonomia, auto-estima e independência financeira.

Disponível na plataforma de streaming Netflix, “Absorvendo o Tabu” usa uma narrativa envolvente para mostrar ao mundo como a ignorância e a cultura patriarcal, que coloca as necessidades e direitos das mulheres em segundo plano, podem produzir ideias e costumes atrasados, que oprimem o sexo feminino por motivos banais. Além disso, o curta vencedor do Oscar também traz, no fundo dessa discussão, uma reflexão que abrange a saúde pública em comunidades afastadas dos grandes centros. Vale a pena reservar meia hora para assistir ao documentário e entrar em contato com essa história que pode parecer absurda nos dias de hoje, mas é muito real.

ABSORVENDO O TABU (PERIOD. END OF SENTENCE.)

COTAÇÃO: ★★★★ (ótimo)