“A Favorita” fascina com trio de atrizes e análise sobre poder e imperfeições humanas

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Erick Rodrigues

Quando se pensa nas várias características que podem definir o ser humano, em qualquer parte do mundo, a busca ou disputa por poder sempre vai aparecer. Seja nos jornais, trabalho, livros de História ou, até mesmo, na mais banal das rotinas diárias, de uma forma ou de outra, o poder está presente, seja ele qual for. Para mostrar quem “manda” em um núcleo familiar ou quem dá as cartas no jogo da política, ele está lá. São as disputas por diversos níveis de poder que marcam a trama de “A Favorita”, um dos recordistas de indicações ao Oscar 2019.

Dirigido por Yorgos Lanthimos, o longa sustenta essa discussão sobre o poder em três personagens, ainda que, no andar da história, outros coadjuvantes também se envolvam na trama. A figura central é a da Rainha Anne (Olivia Colman), a monarca da Inglaterra no século XVIII. Emocionalmente instável e sofrendo de dores físicas, ela mostra ter pouco foco e interesse para as questões do reino e, por isso, acaba muito dependente das orientações de Sarah Churchill (Rachel Weisz), que tem o título nobre de Duquesa de Marlborough.

Aproveitando-se das limitações da rainha, a duquesa consegue não só influenciar as escolhas pessoais da monarca, mas, também, direcioná-la a tomar decisões importantes para o país, tendo, para isso, o apoio do primeiro-ministro. Essa dependência emocional da Rainha Anne também é alimentada por um sentimento amoroso da governante pela conselheira, o que dá mais poder a Sarah dentro da relação.

A posição confortável da Duquesa de Marlborough é colocada em cheque, no entanto, com a chegada de Abigail (Emma Stone), uma prima de Sarah que chega ao castelo em busca de uma oportunidade de trabalho. Frustrada pro fazer parte de uma família que deixou de ser considerada nobre, ela não gosta nada de ser colocada junto aos serviçais, mas logo encontra um jeito de satisfazer sua ambição. Observando a relação entre a duquesa e a rainha, focando especialmente na fragilidade da monarca, Abigail vai conseguindo, aos poucos, chamar atenção a ponto de ameaçar a posição de confiança de Sarah.

Marcado por diálogos fortes e inspirados, criados por Deborah Dean Davis e Tony McNamara, “A Favorita” esconde uma de suas principais características no que não é dito explicitamente. O filme parece, na verdade, uma análise sobre relações e, em especial, sobre algo que sempre marcou a história da humanidade: o poder.

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É interessante observar como se dá a disputa entre Sarah e Abigail por um tipo de poder mais íntimo, que mira interesses egoístas. Ambas querem o favoritismo da Rainha Anne para satisfazerem desejos particulares relacionados a conforto, status social, vaidade e riqueza, sem sequer se preocuparem com o estado de espírito da monarca. A história mostra, no entanto, como essa busca pode afetar outro nível de poder, aquele que atinge os interesses de uma nação. A guerra entre as duas “conselheiras” implica diretamente nas escolhas políticas da Inglaterra, demonstrando de que forma interesses menores podem comandar um país.

Além de tentar colocar uma lente de aumento sobre essas formas de poder, “A Favorita” também parece se interessar por imperfeições do ser humano. A trama mostra, ainda que de forma menos óbvia, a indiferença dos mais afortunados sobre as necessidades dos menos favorecidos e o sofrimento causado por uma alma atormentada, que busca aprovação e, claro, amor.

Esses temas são fortalecidos pela direção de Lanthimos, indicado ao Oscar pelo belo trabalho. Rápido e agressivo, o cineasta consegue transmitir bem ao espectador o clima de acirramento presente na disputa entre as personagens. Apesar de ter sido construído a partir de bases reais, o filme carrega um tom de farsa que combina com as propostas do roteiro. Para lembrar o espectador de que ele está vendo uma ficção, o diretor opta por usar enquadramentos menos comuns e até uma lente que dá um efeito popularmente conhecido como “olho de peixe”, que arredonda as imagens e deixa a impressão de que aquilo é mesmo uma história.

É preciso dizer que nada disso teria o mesmo efeito se não fosse o trio espetacular de atrizes que sustenta o elenco. Olivia Colman, ainda pouco conhecida do grande público, está irretocável como a rainha insegura, frágil e alvo da disputa entre as outras duas personagens. Rachel Weisz surge em cena com uma força que torna impossível desgrudar os olhos dela e Emma Stone constrói uma impressionante transição de personalidade para Abigail, que vai do aparentemente delicado para a maldade.

Ao lado de “Roma”, “A Favorita” é o campeão de indicações ao Oscar neste ano e, assistindo ao filme, não é difícil entender os motivos para isso. Além da produção de época impecável e da direção inspirada de Lanthimos, o filme envolve o espectador nessas disputas por poder e na análise das imperfeições do ser humano, tudo isso refletido em três atuações fascinantes.

A FAVORITA

COTAÇÃO: ★★★★ (ótimo)

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